Estréia americana somente no último minuto antes das nominações (25 de dezembro). Ou lobby displicente dos irmãos Weinstein (leia-se Miramax). Ou ainda fria recepção dos votantes. Um desses motivos, ou todos eles juntos, podem ter levado à exclusão de ''Cold Mountain'' da lista de candidatos ao Oscar nas principais categorias, ficando apenas apontado para disputar a estatueta em quesitos secundários as exceções são Jude Law e Renée Zellwegger, que concorrem às estatuetas de melhor ator e atriz coadjuvante. O filme, uma superprodução de 83 milhões de dólares que levou apenas um Globo de Ouro entregue a Zellwegger, chega hoje ao circuito brasileiro (veja a programação de cinema nesta página). É um bom, sólido e corajoso filme, frequentemente sombrio mas sempre belo, com seu drama épico de inequívoca vocação camerística. Aquilo mesmo que o diretor Anthony Minghella fez no laureado ''O Paciente Inglês'': guerras diversas, dores iguais e intensas.
1864. Estados Unidos. A história, baseada na novela ''Cold Mountain'', premiado best-seller de 1997 do estreante Charles Frazier, segue os caminhos que ligam três personagens, conectados e interdependentes, sobreviventes físicos e espirituais. O soldado confederado Inman (Jude Law), ferido em sangrenta batalha da Guerra Civil, decide desertar e voltar para casa, cruzando o país quase sempre a pé para estar novamente ao lado da mulher que ama. Em seu retorno até a pequena cidade de Cold Mountain, na Carolina do Norte, e aos braços da bela Ada (Nicole Kidman), ele se encontra com outros desertores, escravos e rebeldes, caçadores de recompensa, amigos e inimigos a cada curva do caminho. Por sua vez, outros tantos perigos rondam Ada, mulher afeita à vida acomodada e que agora deve enfrentar um mundo desconhecido e hostil para proteger, da guerra e da ruína, a propriedade do pai. Para ela, a ajuda inesperada chega na figura tosca e primitiva de uma mulher chamada Ruby (Renée Zellwegger), que se converte em parte fundamental da vida de Ada, ensinando princípios básicos para o enfrentamento da inesperada realidade que bate à porta.
O roteiro de Minghella não deixa dúvidas quanto à fidelidade à mesma fusão de fontes clássicas, em especial ''A Odisséia'' de Homero e narrativas de família. A dúvida é onde termina uma e a outra começa, mas isto acaba pouco importando. O herói guerreiro Ulisses-Inman está lá fora, na guerra, mas decide voltar para o conforto e segurança do afeto da nobre Penélope-Kidman que, com paciência e lealdade, mas assediada, aguarda em Itaca-Cold Mountain. O filme abre tão impactante quanto ''Soldado Ryan'', com uma sequência de guerra concebida e executada em imagens com tamanha maestria que D. W. Griffith, o pioneiro genial de ''Nascimento de Uma Nação'' (onde tudo isso começou, o clássico de 1915) deve ter tirado o chapéu, esteja onde estiver. É uma sucessão de brutalidades que apanha Inman em cheio, causando-lhe, além dos ferimentos, a grande náusea.
Apesar de ser na essência uma história de amor, ''Cold Mountain'' não é um filme romântico. É sobre o amor, sim, mas seu discurso se apega com mais desenvoltura intelectual a temas como a amizade, a nostalgia, a natureza, a sobrevivência e as transformações sócio-econômicas que estão ocorrendo num país convulsionado pela guerra civil. É, em certa medida, uma espécie de poema sobre a necessidade de paz depois da brutalidade da guerra. Apesar de formarem um belo casal, falta aquela centelha a Jude Law e Nicole Kidman, aquele ingrediente mágico para a química perfeita. Por sorte, estão distantes um do outro durante grande parte do filme.
- A Folha publica amanhã a crítica de ''Escola do Rock'', outra estréia entrando hoje em circuito nacional.

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