Não é mera coincidência. ''Violação de Domicílio'' chega hoje à Londrina (veja a programação de cinema na página 2) de caso pensado, em função mesmo do acirramento do recente, e sempre brutal, recrudescimento do conflito no Oriente Médio. No rastro de ''Paradise Now'', o filme italiano do jovem e muito talentoso diretor estreante Saverio Costanzo vem colocar entre os dois títulos uma considerável sinergia em torno deste que, com certeza, é o mais insolúvel confronto armado do planeta. Quem estiver em dúvida sobre isto deve se lembrar o que ocorreu nas três últimas semanas, a partir do sequestro do soldado israelense, quando toda a explosiva região foi marcada por nova escalada de retaliações.
Em proporção reduzida, minimalista pela própria intenção de criar alegoria, o filme aborda o conflito palestino-israelense a partir de história real testemunhada em 1992 pelo sociólogo e cineasta Saverio Costanzo e que deve se multiplicar todos os dias. Pai de cinco filhos de várias idades, o professor e diretor de escola Mohamed (Mohammad Bakri, o mais importante ator palestino no momento) é um pacifista, homem culto e liberal. Moram todos numa casa na zona rural, localizada entre uma localidade palestina e um assentamento judeu, naquela tão tristemente conhecida terra de ninguém.
Mesmo quando no meio da noite soldados israelenses ocupam estrategicamente a casa e confinam os moradores no piso inferior (depois de uma espécie de negociação), Mohammad permanece adepto da tolerância e firme partidário da não violência. Ele poderia tentar fugir ou enfrentar a agressão sofrida, mas é pessoa de princípios. Alguém que considera possível a convivência multicultural e aposta na diversidade. Mas os filhos não pensam da mesma maneira, reagindo de formas diferentes, chegando mesmo a considerar o pai covarde e débil. Na casa, vigora uma espécie de acordo não oficial. Embora fechados à chave, sem acesso ao exterior, a ''família B'', como aparece nos créditos, pode ir ao banheiro e à cozinha depois de autorizada pelos militares.
Como está na tela durante 90 minutos que poderiam ser 9 dias, 9 semanas ou 90 anos , o argumento de ''Violação de Domicílio'' reúne com criatividade elementos diversos de pleno envolvimento da platéia. Como a representação do conflito maior. Ou a máxima concentração dramática em termos de tempo e espaço. Ou também permite investigar o complexo jogo de alianças, táticas, negociações e contradições, tanto no núcleo familiar palestino quanto na relação com os soldados israelenses.
Assim como está, e uma vez instalado, este esquema funciona como uma bomba-relógio. Figurativamente, já que diante de tantas pistas e sugestões (e apreensões), tudo carrega o peso da metáfora, aquela casa fazendo as vezes da terra palestina. Não deixa de ser uma bomba-relógio. A maior, entre as muitas virtudes do filme: mostra muito menos do que sugere.
Interpretado pelos melhores atores palestinos e israelenses disponíveis, e também com o concurso de italianos, ''Violação de Domicílio'' utiliza muito (demasiado às vezes) a câmara na mão e o suporte digital (tomadas noturnas), o que dá às imagens uma textura adequadamente suja, descolorida, nervosa e urgente. Realizado na pedregosa Calábria, que sem qualquer problema serviu como dublê geográfico, o filme coloca o espectador em contato direto com a clausura, a angústia, a incerteza. Com a face dura da humilhação.
Apontando no pacifismo e na humanidade, ''Violação de Domicílio'' é um filme que se coloca neutro neste conflito, que aposta no homem e no diálogo, sugerindo que é preciso que ambas as partes aprendam a olhar para dentro de si e do vizinho.

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