CINEMA/ESTRÉIA - A batalha naval pelo Oscar
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 30 de janeiro de 2004
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
O brasileiro Fernando Meirelles, surpreendentemente indicado esta semana pela Academia de Hollywood na categoria de melhor direção por ''Cidade de Deus'', vai enfrentar a concorrência de pesos-pesados como Peter Jackson, Clint Eastwood e Peter Weir. E é este último quem assina o respeitoso ''O Mestre dos Mares - O Lado Mais Distante do Mundo'', em lançamento a partir de hoje no circuito brasileiro (confira a programação de cinema nesta página).
Depois dos extravagantes excessos pós-modernos de ''Piratas do Caribe'', produção transbordante que vampirizou com esperteza a herança do gênero de aventuras navais e se transformou num dos campeões de audiência em 2003 (cerca de U$ 400 milhões), o cinema americano retoma a calmaria e o curso da antiga tradição. ''O Mestre dos Mares: O Lado Mais Distante do Mundo'', a princípio um filme reverente aos velhos padrões de títulos marítimos clássicos que frequentam a memória dos espectadores veteranos, é a adaptação de algumas das vinte novelas escritas pelo recentemente falecido escritor inglês Patrick O'Brian. No centro das peripécias, o fictício capitão Jack Aubrey (Russell Crowe), seu inseparável companheiro, o médico e cientista Stephen Maturin (Paul Bettany), muito céu, muito mar e algumas boas brigas entre peritos na arte de guerrear sobre as ondas.
O irregular diretor australiano Peter Weir (''A Testemunha'', ''O Show de Truman'', ''Sociedade dos Poetas Mortos'', ''Sem Medo de Viver''), também co-autor do roteiro, é hábil no processo de sedução das jovens platéias que estão aportando agora a um gênero que andou por muito tempo submerso em águas poluídas por imposições de um mercado consumidor de novas tecnologias. Se por um lado ele constrói sem pressa uma espécie de rigoroso espetáculo minimalista - apesar das aparências, não se trata de um feérico capa-e-espada estilo Errol Flynn - sobre relações ásperas entre homens do mar, por outro Weir facilita a árdua jornada dos espectadores mais afoitos e imediatistas ao criar um jogo de suspense vertente gato e rato entre o navio inglês ''Surprise'' e seu implacável perseguidor francês ''Acheron'', numa espécie de batalha desigual entre Davi e Golias. As novas platéias, ancoradas no carisma de Russel Crowe, devem curtir o duelo à parte entre o capitão Aubrey e seu antagonista.
Modesto sucesso nas bilheterias americanas, ''Master and Commander: The Far Side of the World'' oferece como pontos de maior interesse a cuidadosa recriação quase documental do que deve ter sido o duríssimo cotidiano a bordo; e o rico, estimulante convívio entre o soldado Aubrey e o cientista Maturin, com ótimos diálogos. No conjunto, ''O Mestre dos Mares'' acaba favorecido, mas nada que empolgue tanto os acadêmicos a ponto de sobrecarregá-lo de estatuetas. E nem de longe é melhor filme do que os demais candidatos.


