Aos 23 anos, ''El Fuser'', como então era o apelido do estudante de medicina Ernesto Guevara de la Serna, e seu amigo Alberto Granado, bioquímico de 29 anos, auto-definido como ''cientista vagabundo'', partem de Buenos Aires com a valente ''La Poderosa'', uma velha moto Norton 500. Meta: da porta de casa até Guajira, na Venezuela, 8 mil quilômetros de América Latina, estimados quatro meses (e ao final quase um ano) à procura de um continente que conhecem apenas na teoria.
Argentina, Chile, Peru: tudo novo e assustador. Uma outra visão da paisagem geográfica e humana, um olhar cada vez mais distante da oficialidade, a percepção a cada dia mais alterada diante da realidade, a descoberta do continente mais profundo, o despertar da busca de justiça social. Neste road movie que é um rito de passagem para a conscientização social e política, entre outras descobertas o espectador acaba se identificando, através da dupla de personagens, com aquele conceito de identidade, de ''latinamericanidad''.
Ajudado por inúmeros fatores - dupla de intérpretes em estado de graça, equipe técnica de muito talento, retaguarda de produção confiável a toda prova - e, claro, pela própria capacidade já demonstrada nos últimos anos em ''Central do Brasil'' e ''Abril Despedaçado'', Walter Salles realizou uma espécie de hino de amor à pureza de ideais.
''Diários de Motocicleta'' é acima de tudo um filme sobre generosidade e ternura, sobre amizade e respeito ao próximo, sobre dignidade e responsabilidade, sobre de que maneira o ser humano pode e deve situar-se num contexto de adversidades para extrair aquilo que pode leva-lo à sua própria verdade, e assim socorrer seu semelhante necessitado.

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