Pode ser que não leve o principal prêmio no próximo Festival de Cannes, de 10 a 23 de maio. Pode ser que não leve nenhum dos prêmios. Afinal, há outros 18 pretendentes à Palma, entre eles alguns pesos pesados do circuito festivaleiro - há o muito aguardado e já previamente cultuado ''2046'', do caprichoso chinês Wong Kar-wai. Há os sempre mais ou menos favoritos irmãos Coen, este ano com ''The Ladykillers''. Também vai estar no festival o novo trabalho do bósnio Emir Kusturica, um colecionador de prêmios máximos em Cannes. E outros mais que não foram listados por acaso, entre eles vários tigres asiáticos. Ah, e Tarantino, o imprevisível Quentin Tarantino, que vai presidir o júri. Nada é provável, tudo é possível, portanto nenhuma aposta prévia está autorizada.
De qualquer maneira, chova ou faça sol na Riviera, absolutamente nada pode contrariar o fato de que ''Diários de Motocicleta'' é um filme que dará enorme prazer à imprensa mundial que vai acorrer a Cannes e, por que não, muito trabalho àqueles nove jurados. Porque o novo trabalho do diretor Walter Salles, exibido segunda-feira em São Paulo para um grupo de jornalistas convidados, é obra de um diretor que alcança a maturidade em plena forma como narrador, alguém que sabe exatamente como lidar com temas não exatamente fáceis, mas capazes de render belas histórias. Como esta, de Ernesto Guevara de la Serna e Alberto Granado, dois jovens sonhadores que nos idos de 1952 caem nas estradas de uma desconhecida, fascinante e reveladora América Latina. O filme está baseado nos relatos ''Notas de Viaje'', de Ernesto Guevara, e ''Com El Che por Sudamerica'', de Granado.
''Hay que endurecer-se, pero sin perder la ternura jamás''. A frase do comandante Ernesto Che Guevara foi inscrita em muros, T-shirts, nos diários adolescentes, nas canções, na construção do mito. O roteirista José Rivera e o diretor Salles deixaram de lado esta parte, o mito consolidado, e foram buscar as origens, a gênese do ''endurecimento''. O Guevara ''prima della rivoluzione'', como definiria Bertolucci. E encontraram a ternura. Pois é disso que é feito o filme de Salles, é essa matéria carinhosa e calorosa que recheia a narrativa de ''Diários de Motocicleta''.
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