2003, declarado oficialmente ano do blues pelo Congresso dos Estados Unidos, é o pretexto para que sete cineastas, à frente Martin Scorsese (também co-produtor da série ''The Blues''), apresentem cada um seu documentário sobre a história deste gênero musical, das raízes no final do século 19 até nossos dias. Ao fundo, a segregação, os sofrimentos e esperanças de um povo, a luta pelos direitos civis. Coube ao alemão Wim Wenders abrir esta coleção em alto estilo com ''The Soul of a Man'', apresentado na seleção oficial do Festival de Cannes deste ano, mas fora de competição. Já a partir do título, a pista maior das intenções: apresentar os primeiros criadores e ilustrar a força emocional e espiritual do blues, que ao longo dos últimos e dos próximos, é a aposta de muitos 100 anos vem decididamente influenciando a música popular. A mesma coisa Wenders já tinha feito em ''Buena Vista Social Club'', documentário-peregrinação de 1999 sobre as fontes da música cubana e seus legendários músicos.
Trata-se de uma estimulante e envolvente saudação a três músicos, na verdade quase três lendas, pouco ou nada conhecidas do grande público, mas com destaque na cabeceira dos especialistas. Em comum, além do talento e da negritude sulista mais segregada, uma vida pobre e difícil, uma morte sem glória e o status de mitos como única recompensa póstuma. Blind Willie Johnson, Skip James e J.B. Lenoir. Fiel a sua natural e quase obsessiva inclinação de captar a verdade das pessoas, de as reintegrar ao seu verdadeiro contexto, de resgatar sua riqueza artística, Wenders oferece uma espécie de documentário poético sobre estes três bluesmen que ele ama particularmente.
Que prazer é descobrir o texano Blind Willie Johnson cantando gospel pelas esquinas, registrando apenas umas poucas gravações em 1927 e municiando um ínfimo arquivo iconográfico. Wenders não se faz de rogado e arma uma espécie de pastiche histórico, material fake reconstruindo a vida do artista a partir de uma narração com a voz de Laurence Fishburne como Blind Willie (interpretado por Chris Thomas King), e sequências ficcionais que mimetizam os filmes em preto-e-branco dos primeiros tempos do sonoro. O mesmo deleite o espectador experimenta quando a narrativa de Fishburne introduz a estranha carreira de Skip James, que compôs para piano e guitarra, foi músico de bar, gravou 26 músicas em apenas dois dias de contrato com uma gravadora quase falida em 1931, tornou-se pastor batista no ano seguinte, ressurgiu como cult meteórico em 1964 e sobreviveu a um câncer o tempo suficiente para afinal produzir dois discos com as raridades que havia gravado em 31. O terceiro e último personagem, tratado com o mesmo desvelo, é J.B. Lenoir, incontestável ídolo dos bluesmen ingleses dos anos 1960. Guitarrista e cantor, autêntico ''músico da alma'', Lenoir chega ao público através de imagens raras feitas por um casal de admiradores e amigos suecos, que permitem dimensionar com exatidão a estatura artística de alguém que une com maestria, através da música, os laços entre o sacro e o profano.
A história desses três artistas se confunde com a própria história do blues, com certeza a ser expandida nos outros seis filmes da série. As mais notáveis composições do trio, registradas por Wenders e mostradas alternadamente entre passado e presente, saltam para a contemporaneidade em interpretações de Lou Reed, Cassandra Wilson, Nick Cave, Los Lobos, Eagle Eye Cherry, Bonnie Raitt, Marc Ribot, Lucinda Williams, Jon Spencer Blues Explosion e outros.
Aos 58 anos, Wim Wenders é considerado um dos mais importantes diretores da cena internacional, com um cartel de 24 longas que incluem ficção e documentários pouco convencionais que receberam diversos grandes prêmios em festivais, entre outros a Palma de Ouro em Cannes-84 com ''Paris, Texas'' e o Leão de Ouro em Veneza-83 com ''O Estado das Coisas''. Este ano em Cannes como convidado fora de concurso e presidente do júri ''Caméra d'Or'' (prêmio ao melhor filme de diretor estreante), Wenders teve tempo e paciência para atender os jornalistas. Com a Folha ele conversou sobre a influência da música em sua carreira, sobre o cinema europeu e, claro, sobre os Estados Unidos e o blues.
Uma vez você disse: o rock me salvou a vida. E o blues?
O blues me preparou para esta salvação. É o som ancestral, a fonte original, todos me influenciaram. De Presley aos Beatles, passando por Jimi Hendrix, John Mayall e Eric Clapton, todos sempre disseram que seus mestres foram J. B. Lenoir e Blind Willie Johnson. O pessoal da NASA, que incluiu esta música na nave ''Voyager'' como legado da humanidade, fez a coisa certa, se bem que eu acrescentaria os Rolling Stones, Bob Dylan e um pouco de música cubana.
Outra sua paixão, celebrada em ''Buena Vista Social Club''.
É diferente. Ali eram músicos velhos, mas muito vivos e atuantes. Em ''The Soul of a Man'' estão os três mortos, e deles só restavam algumas fotos e algum repertório gravado. Todo o resto tive que reconstruir parte em preto-e-branco, parte em cores.
Na sua visão, qual é o valor mais importante do blues?
O blues é a expressão musical das classes sociais menos favorecidas dos Estados Unidos, daqueles verdadeiramente marginalizados. Os músicos utilizaram o blues para falar de condições sociais, mas também de valores espirituais. Muito mais que o rock, o blues não é somente uma combinação de notas musicais, mas uma maneira para falar sobre as pessoas. Embora tratando de problemas cotidianos, o blues é também uma música metafísica, existencial. Que fala de uma outra vida, de Deus, de esperança. Aquilo que encontramos no discurso de Martin Luther King. Aquela dicotomia, sempre presente, entre o que é e o que será. E que me fez redescobrir o cinema.
Por que incluiu a performance de músicos da atualidade, como Lou Reed?
Os jovens conhecem pouco o blues, por isso convidei diversos músicos para fazer uma ponte, uma aproximação entre esta última geração e aquela expressão musical.
Ao longo de sua carreira, nota-se uma estranha relação de amor e ódio entre o seu cinema e os Estados Unidos. Confere?
Há uma grande diferença entre o julgamento da administração do país e aquele sobre as pessoas que vivem lá, seus lares, suas paisagens. Para mim, neste momento, o problema mais grave nos Estados Unidos é o conflito entre o poder e as pessoas que não têm nenhum tipo de informação política. Quero dizer que se sabe de tudo pela imprensa, mas nada daquilo que de fato ocorre entre as quatro paredes de quem detém o poder real sobre o país. Por outro lado, os americanos viajam cada vez menos porque têm cada vez mais medo. É estranho: a América parece um país rico que resolveu todos os problemas, mas ao invés, especialmente quando filmava cenas no Mississipi, compreendi que existem áreas onde as pessoas vivem ainda em condições desesperantes, de extrema pobreza como no Terceiro Mundo.
Já está trabalhando num próximo filme?
Sim, e já tem título: ''Don't Come Knocking'', um espécie de western ambientado no século 21, com muito mais carros que cavalos. Uma história familiar tragicômica escrita por Sam Shepard e rodada em Montana.
E ultimamente viu alguma coisa que o impressionou em particular?
Me agradou imensamente ''As Horas'', um verdadeiro filme de atores.

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