CINEMA/ENTREVISTA Penélope, a namorada de Tom Cruise
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sábado, 17 de maio de 2003
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> De Cannes<br> Especial para a Folha 
Não havia grande motivação para uma entrevista, mas o dever acima de tudo. ''Fanfan la Tulipe'', o filme que a trouxe a Cannes para a abertura do festival, é pequeno, embora não insignificante. E por ora não deve ser lançado no Brasil. Em seu currículo, à exceção de alguns momentos no cinema de fala espanhola sob o manto magnético de Pedro Almodóvar - ''Todo Sobre mi Madre'', por exemplo -, ou em ''Belle Époque'', não há outras performances memoráveis. Sua carreira internacional, inquestionavelmente turbinada pelo namoro com Tom Cruise, até o momento não provocou qualquer espanto, para o bem ou para o mal. Assim, a entrevista que a madrilenha Penélope Cruz concedeu à Folha 2 no dia seguinte à gala de abertura não é também nenhum espanto, mas se inscreve nos trâmites protocolares de eventos do tipo.
Magra, miúda, quase franzina, logo de saída e antes que alguém pergunte, tenta justificar o cabelo curto e encrespado, bem diferente dos longos e lisos da heroína de Fanfan, Adeline: ''Sim, sim, cortei, queria alguma coisa de diferente e zapt, cortei, pronto. Surpreender me diverte, me estimula'', justifica ela em inglês, já que no grupo de jornalistas somos dois americanos, uma italiana e um brasileiro. Abstraindo aquele entranhado sotaque espanhol, ela vem aprendendo direitinho as lições, certamente também com a ajuda de Tom Cruise. E é em torno do namorado famoso que começa a entrevista, e por pouco não acaba logo em seguida, quando a colega italiana pergunta por onde anda o rapaz. ''Tom está trabalhando, e só este motivo explica sua ausência'', responde quase rosnando uma Penélope subitamente transtornada. Mais que depressa, mudo de assunto e abro uma conversa mais civilizada:
Como você conseguiu o papel de Adeline em ''Fanfan la Tulipe''?
Vincent Perez e Luc Besson que pensaram em mim para fazer o personagem. Vincent me chamou, nós nos conhecíamos havia nove anos. Tínhamos trabalhado juntos em ''Talk of Angels'' e nos demos tão bem que saímos do set como dois irmãos. É daquele tempo que vem nossa grande amizade. Além disso, adoro os filmes de aventura e de capa-e-espada naquele espírito dos Três Mosqueteiros, mas nunca tive a oportunidade. Então li o roteiro e me senti próxima de Adeline, tão cheia de energia, de personalidade. E assim como Adeline sou capaz de amar, de doar-me sem interesse.
Você viu o ''Fanfan'' original? O que achou de Gina Lollobrigida como Adeline?
Logo antes de começarem as filmagens vi o original de 1952. O nosso ''Fanfan'' é uma variação muito livre, principalmente na segunda parte. Por isso não gosto que se comparem os dois filmes. E também não vejo semelhança entre Gina Lollobrigida e eu, mesmo fisicamente (sic). Além de tudo, é impossível imitar uma lenda, e nunca pensei nisso. Cresci no cinema espanhol onde não havia o divismo, apenas o realismo.
Sua carreira internacional aconteceu depois de dois grandes sucessos do cinema espanhol, ''Jambon Jambon'' e ''Todo Sobre Mi Madre''.
Sim, é verdade. Tudo aconteceu muito depressa, e preciso aprender a utilizar bem a fama. Por exemplo, ajudar os hospitais. Toda vez que uma associação assistencial me solicita, eu estou lá. É isto o que há de real neste mundo.
Você parece ser uma pessoa espiritualizada...
Dois encontros importantes marcaram minha vida. O Dalai-Lama e Madre Teresa. Recebi uma educação católica, mas não ia todos os domingos à igreja. Tenho minha própria relação com Deus. Hoje cultivo minha espiritualidade através do budismo. Conheci o Dalai-Lama numa exposição de fotos em Barcelona, fotos que tirei dos refugiados do Nepal. Para mim ele não é apenas um líder espiritual, mas também um político ideal.
Sua vida mudou muito depois que saiu de Madri? Como é viver com Tom em Los Angeles?
Com Tom nada de limousine ou Rolls, no máximo saímos com o Porsche esportivo. O estrelato mudou, todo mundo sabe. Às vezes vou a Nova York, onde tenho um apartamento. Encontro minha irmã, meu irmão, duas pessoas normais e ricas por dentro, com eles não perco o sentido de realidade.
De Cannes para Montreal para um filme com Charlize Theron, um ''thriller'', é verdade?
Estou em dois filmes simultaneamente, um com Halle Berry e Robert Downey Jr., ''Gothika'', um drama de horror. O outro é com Charlize Theron. Entre um e outro pretendo continuar a estudar duro o inglês e o francês, não quero nunca mais ser dublada.
O jornalista Carlos Eduardo Lourenço Jorge viajou a Cannes a convite do festival e com apoio da Sercomtel.


