CINEMA/ENTREVISTA - Um outro olhar sobre 'Marie Antoinette'
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sábado, 03 de junho de 2006
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para Folha2 
No pelotão intermediário dos filmes em competição no recém encerrado 59º Festival de Cannes, situado entre os poucos favoritos e os muitos azarões, ''Marie Antoinette'' surgiu previamente como uma real possibilidade, em vista do tema escolhido e dos antecedentes de sua jovem realizadora, Sofia Coppola. Poucos, mas consistentes. Veio então a exibição que rachou a mídia entre recepção calorosa e decepção idem - respectivamente, longa ovação na sessão de gala para convidados e público, e não poucas vaias na sessão para a crítica.
Na rápida e até certo ponto tensa coletiva que se seguiu, a diretora não ficou lá muito à vontade diante da cobrança cerrada que recebeu de alguns jornalistas. Falou pouco, tangenciou, desligou-se e só. Era preciso, no entanto, saber mais sobre este projeto que custou 40 milhões de dólares, e o porquê precisamente da escolha do personagem. Saber mais também sobre esta mulher cineasta de berço, conhecê-la além daquilo que se observou nestes seus dois primeiros filmes - ''As Virgens Suicidas'' e ''Encontros e Desencontros'' - que formam, com ''Marie Antoinette'', uma espécie de trilogia sobre adolescentes no limiar da idade adulta. Mas não apenas isso.
Um pouco menos anoréxica, mais bonita, mais graciosa e menos tímida do que na coletiva, Sofia Carmina Coppola, 35 anos, filha de Francis Ford, prima de Nicolas Cage, conversou com a Folha dois dias depois da exibição do filme, numa suíte do Hotel Martinez. A seguir, os principais trechos da entrevista.
Por que Maria Antonieta, e quem era ela de fato, no seu ponto de vista ?
Creio que era uma jovem com dignidade, alguém do nosso tempo, alguém que se entediava. Ou talvez uma garota muito rica que queria morrer. O personagem é atemporal. Antonia Fraser (NR: autora da biografia em que se baseia o livro) falava da princesa Diana, mas eu não quis explorar este lado. Era uma rainha muito jovem, e por isso me interessei por ela. Foi uma tarde em Paris, amigos me falaram de um romance de Stefan Zweig, e achei que daria um roteiro fascinante.
Houve reações contrárias da mídia em Cannes ao seu filme. Qual a sua avaliação?
Eu não me coloco como uma expert da vida de Marie Antoinette, e nem pretendi dar uma lição de história. Com este retrato íntimo, humano e pop-impressionista do personagem eu me coloquei no âmbito da livre interpretação artística. Quis fugir mesmo das convenções do filme histórico. Mas de qualquer modo nós tínhamos um enorme livro sobre a etiqueta de Versailles para estarmos muito dentro da verdade daquele tempo.
Outra queixa foi a não politização do tema, especialmente num festival sempre marcado pelo posicionamento político.
Evocar as razões do povo, a Revolução, a fuga a Varennes, a prisão, o processo, os últimos instantes, tudo isso tornaria o filme muito longo. E seria um outra história, diferente da que eu contei.
E que história foi esta que contou?
A de uma Marie Antoinette muito jovem quando chegou a Versailles para o casamento, aos 14 anos. A de uma adolescente que logo em seguida se tornou rainha de França. A de uma virgem durante os primeiros sete anos de seu estranho casamento. Suas relações familiares, sua vida pessoal bem diferente dos clichês que eu tinha comigo, estes de uma mulher decadente, frívola, controvertida, detestada mas digna e corajosa até o fim.
Há um estilo deliberadamente neo romântico que você imprimiu ao filme.
Sim, eu quis mesmo inserir o espírito neo romântico de grupos pop dos anos 80, como Bow Wow Wow e Adam Ant na trilha. Sua visão do século 18 é decadente e colorida...
Por que o filme é tão pouco verbal? Talvez por todo um universo de expressões corporais da corte, olhares, reverências, mesuras, seria isto?
De fato. Versailles foi um teatro da mundanidade, um mundo da representação, e eu quis decantar a linguagem para então chegar ao teatro dos corpos.
''Marie Antoinette'' marca o fim de uma trilogia?
Esta recorrência às virgens, essas minhas heroínas perdidas, deslocadas no mundo que as cerca e aprisiona, nisto eu não pensei racionalmente antes de fazer o filme. Mas agora me dou conta de que estou fechando um capítulo, e que para mim já é hora de passar para outra coisa.
Você foi duramente criticada quando seu pai a escolheu para interpretar, aos 19 anos, a filha rebelde de Michael Corleone em ''O Poderoso Chefão, Parte 3''. Você não quis mais ser atriz, e agora parece adorar a direção.
Aquela minha experiência solitária não foi assim tão extremada, mas posso chamá-la de devastadora. Aos 19 você quer experimentar muitas coisas. Só que eu de fato não queria ser atriz. E descobri que há alguma coisa de sensual no ato de dirigir, de entrar em contato com toda esta beleza, o vestuário, os décors. São momentos únicos, de muita alegria para mim. Eu não poderia mais viver sem o cinema.


