CINEMA/ENTREVISTA - Por um mundo justo e sem fronteiras
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sexta-feira, 26 de maio de 2006
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> De Cannes, especial para a Folha 2 
Além de contente pela ótima acolhida que seu filme teve na estréia mundial no festival de Cannes, Alejandro IÀárritu recebeu o enviado da Folha eufórico com a performance do cinema latino-americano em mercados de todo o mundo. Este mexicano de 43 anos, com uma curta mas já decisiva filmografia a partir de 2000, que inclui ''Amores Perros'', um episódio no coletivo ''11'09'01'' e ''21 Gramas'', falou sobre principalmente sobre ''Babel'', favorito para a premiação. A seguir, os principais trechos da entrevista.
Sobre o que é realmente ''Babel''?
É sobre pessoas tentando se comunicar através de barreiras e fronteiras de linguagem em diferentes situações em territórios do Terceiro Mundo. Para mim a história é sobre como são vulneráveis e frágeis os seres humanos. Eu não teria esta idéia se não fosse eu mesmo um diretor no exílio, vivendo por cinco anos em Los Angeles, longe da minha terra. E como é difícil se comunicar. Idéias e preconceitos, mais que fronteiras, nos dividem. Fazer este filme durante um ano, levando para todos os cantos minha mulher e meus dois filhos de 11 e 8 anos foi uma experiência humana transformadora.
Na entrevista coletiva ficou bem claro que ''Babel'' realmente toca fundo em você...
Para mim, todo filme é um testemunho do que eu acho da vida. Sobre quem eu sou, minhas fraquezas e virtudes. Eu continuamente despejava idéias no roteiro. Não parei de viajar um só minuto através do mundo. Este foi muito especial para mim.
Como foi trabalhar num filme com tal nível de desafios, com um grande estúdio como a Paramount por trás e ainda assim manter a liberdade ?
Na verdade são quatro filmes ambientados em três diferentes países, com três ou quatro grandes nomes e a maioria de atores não profissionais. Este esquema acaba sendo mundo parado, o que tornou ''Babel'' quase um filme auto-financiado e independente. Do orçamento total de US$ 25 milhõess, a Paramount colocou 50 por cento pelos direitos de distribuição em territórios americanos. E eu tive controle sobre cada linha do roteiro, tive também direito ao corte final. Tem sido assim desde ''Amores Perros'', por isso me considero um sujeito de sorte.
Parece que os ventos passaram a soprar a favor do cinema latino-americano.
Estou muito feliz. Tudo mudou muito, de 2000 para cá. Não apenas eu, mas Alfonso Cuarón, Carlos Reygadas, Guillermo Del Toro, todos ajudam a mudar a percepção do filme latino-americano. Agora mesmo há aqui em Cannes dois filmes mexicanos em competição. Engraçado: o que está acontecendo no México não é consequência de alguma coisa político-cultural. Há milagres individuais ocorrendo ao mesmo tempo.
Como foi trabalhar com Brad Pitt ?
Brad representava o americano que eu precisava para a história. Não era uma escolha óbvia. Este não é um ''papel brad Pitt''. Normalmente em minhas escolhas, vou em direção contrária àquilo que o instinto habitual está me dizendo. Arte é transformação. Foi desafiador para Brad deixar ''Brad Pitt'' para trás e se tornar um ser humano frágil. Isto mantém a adrenalina alta.
E agora, o que vem a seguir ?
Estou com muitas idéias, mas preciso ao menos de uns dois meses para descansar. Vou pegar os meninos e relaxar um pouco neste verão.


