CINEMA/ENTREVISTA - Os 'Misteryos' de Vereza
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 31 de janeiro de 2007
Katia Michelle<br> Equipe da Folha 
Curitiba - O ''Mistério da Japonesa'', curta-metragem lançado em 2005, foi a primeira incursão cinematográfica do diretor Beto Carminatti na obra do escritor Valêncio Xavier. A experiência foi suficiente para dar a Carminatti - e ao também diretor Pedro Merege- a certeza de que a obra de Valêncio é um prato cheio para ser levada ao cinema. Paralelamente à produção do curta, eles já arriscavam vôos mais altos para a parceria e já naquela época desenharam o projeto do longa-metragem ''Misteryos''.
O longa é baseado em cinco contos do livro ''Mez da Gripe'', de Xavier, e foi premiado no segundo edital estadual de cinema com R$ 1 milhão. Desde o início de janeiro já está sendo gravado na capital com a participação de atores de projeção nacional, como o veterano Carlos Vereza. O filme, que ainda não tem data de lançamento, está consumindo cerca de 12 horas de gravações diárias e tem a participação, além de Vereza, de Stephany Brito, Leonardo Miggiorin e Lala Schneider nos papéis principais.
O filme narra o desaparecimento de uma jovem exatamente no mesmo instante em que o homem pisava na Lua pela primeira vez, em 1969, mas não se trata de uma história linear, como avisam os diretores Carminatti e Merege e sim de um filme ''surreal'', como a própria literatura de Xavier. Além de levar para a tela os contos do premiado livro do escritor radicado em Curitiba (Mez da Gripe ganhou o Jabuti de 1999), a produção também é responsável por uma inovação tecnológica no cinema nacional. As filmagens estão sendo realizadas com lentes Anamórficas da Panavision, que, segundo os diretores, garantem uma qualidade de imagem comparável à das grandes produções internacionais.
A Folha foi até o set de filmagem do longa e conversou com os diretores e alguns atores sobre a produção. A seguir a entrevista com Carlos Vereza
Você filmou em Curitiba ''Aleluia Gretchen'', de Silvio Back, na década de 70. Como está sendo esta experiência de voltar a filmar na cidade depois de tanto tempo ? A produção cinematográfica por aqui mudou muito?
Agora nós estamos fazendo um filme com tecnologia de ponta, top de linha mesmo. Mas mais importante que isso é o conteúdo. Colocar na tela uma obra do Valêncio Xavier.
Você já conhecia a obra dele? Não.
Leu só o roteiro do filme? Como fez para se ambientar na literatura do autor?
Eu li o livro e continuo lendo. Agora, o roteiro vira uma terceira obra. Quando você adapta o livro é bom, de vez em quando, deixá-lo de lado, porque o roteiro passa a ser uma outra obra, passa a ter uma outra identidade. Eles (os diretores) pegaram quatro ou cinco contos em uma história só.
O roteiro não traz uma estrutura linear, isso traz alguma dificuldade de interpretação?
Não. Eu estou acostumado à televisão. A gravar de trás pra frente, de frente pra trás...
E o que mais te agradou nesse roteiro e na produção em geral?
Exatamente o fato de não ser naturalista. O filme é realista, mas os fatos acontecem como se fossem algo lúdico. Cada espectador tirará a sua conclusão. São pedaços que se multiplicam e que, ao final do filme, são reunidos e cada espectador tirará a sua conclusão. Tudo pode não ter passado de uma visão, de fantasia do VX, o personagem central. Ele é um amante do cinema, os fatos podem ter sido fotogramas formados na cabeça dele. Mas eu não teorizo muito o meu trabalho. Eu encaro cada cena como se fosse a primeira e a última.
Mas qual a sua conclusão sobre o personagem? Ele viveu os fatos ou foram apenas visões?
Não sei.
E você está com outro projeto agora? O que vai fazer depois que as filmagens em Curitiba acabarem?
Eu tenho um filme para fazer em São Paulo, chamado ''O Homem Qualquer'', da Encruzilhada Filmes. As filmagens começam em março. Novela ainda não. Espero que só final do ano.
Você também está com um projeto na área da música...
Eu toco flauta transversal. Eu não sou flautista, sou um ator que toca flauta, mas tem um recital que pretendo trazer ao Guairão, talvez em abril. É um recital com músicas de Villa-Lobos, Tom Jobim e poemas do Drummond.


