Um dos favoritos à Palma de Ouro em Cannes, Michael Moore foi também um dos mais requisitados pela imprensa internacional, com uma apertada agenda a cumprir. Agitador, engajado e fiel a seu estilo provocante, o líder dos ''Bush haters'', ou os que odeiam Bush, é reconhecido facilmente à distância. Peso pesado, sempre informal, de camiseta, boné de baseball e bermuda (só cedeu ao terno quando foi à gala do Palais), esse americano nascido em Michigan há 50 anos é gentil e simpático, e aparentemente não foi afetado pela fama, depois do prêmio especial em Cannes e do Oscar-2003 de melhor documentário para ''Tiros em Columbine''. E por mais que se saiba que sua atuação em televisão, cinema e livros é de alguma maneira oportunista, não há como negar a ele carisma e coragem.
Em Cannes, a ''Folha'' conversou rapidamente com o diretor sobre as dificuldades que ''Fahrenheit 9/11'' está enfrentando para chegar ao público americano o mais rápido possível, já que Moore assume que o documentário foi feito para ajudar a tirar Bush da Casa Branca. Entre outros temas, o filme trabalha em cima de algumas nervos expostos dos Estados Unidos de hoje: as relações subterrâneas entre as famílias Bush e Bin Laden nos anos l970, a mistificação e a paranóia criadas pelo governo Bush para justificar a invasão ao Iraque, a perda de vidas entre o exército de ocupação, a responsabilidade pela inépcia que permitiu o atentado ao WTC. Estão faltando no filme as imagens de torturas praticadas por americanos nas prisões iraquianas. Mas como Moore já disse que o filme é ''work in progress...''
Não é segredo que está havendo problemas nos Estados Unidos para a distribuição do filme. Por que você acha que a Disney está tentando impedir quer ''Fahrenheit 9/11'' chegue às telas já agora no verão americano?
A principal razão porque não temos ainda um distribuidor é que o chefão da Disney, Michael Eisner, recebeu o relatório de um executivo da companhia, que viu o filme em 23 de abril e definiu meu trabalho como ''explosivo''. Harvey Weinstein, que produziu ''Fahrenheit 9/11'' pela Miramax, disse que ouviu do tal executivo: ''Este é filme mais perigoso que Moore já realizou''.
E você, o que pensa disso? Acha que é realmente perigoso?
É explosivo no sentido de que, ao longo dos últimos anos, eu obtive a atenção de um público muito mais amplo do que qualquer pessoa da esquerda geralmente consegue. Acho que penetrei fundo no coração da América, e acho que é isto que está incomodando. É preciso lembrar que Estados Unidos cinquenta por cento das pessoas não votam. Se eu conseguir chegar a apenas dez por cento deste universo, se eu der uma boa sacudida neles e fornecer uma razão para eles irem às urnas em 2 de novembro, com certeza isso vai deixar muita gente nervosa. Aliás, já está deixando.
Então você assume que o filme, ou boa parte dele, é para influenciar a eleição presidencial?
Mas é claro, e também para influenciar decisões após as eleições. Porque os problemas que estamos tendo ainda vão continuar, esteja quem estiver na Casa Branca. Ainda não ouvi John Kerry explicar o que seja o plano de evacuação do Iraque. Assim, daqui a um ano, ainda vamos estar lá este é meu triste pressentimento. Este é um filme não apenas sobre ''Vamos nos livrar de Bush''. Eu não iria ver esta espécie de filme. Meu tempo é limitado. Não preciso perder duas horas num cinema só para saber que Bush tem que sair. Decidi não fazer este tipo de filme, que seria previsível e tedioso. Decidi fazer um documentário para saber onde e como as pessoas estão depois de 11 de setembro. E com algumas coisas mais.
Como você pensa resolver o problema da distribuição de ''Fahrenheit'' nos Estados Unidos?
Acho que os os irmãos Weinsten vão conseguir comprar de volta os direitos de distribuição. Não sei exatamente como, mas parece alguma coisa como uma união de outras companhias, recurso que abriria espaços. Isto provaria que outras grandes distribuidoras como Paramount, Sony Pictures, HBO, AOL Time-Warner, Focus, Showtime, NBC/Universal e Viacom não estão, como a Disney, com medo da liberdade de expressão.
Ao contrário de ''Tiros em Columbine'', onde você tinha intensa e divertida participação diante das câmeras, conduzindo pessoalmente as entrevistas ou às vezes aparecendo sem nada dizer, em ''Fahrenheit 9/11'' quase não se vê Michael Moore em cena. Por que?
Simples: o único palhaço em meu filme é Bush...
Leia mais sobre o Festival de Cannes na página 6.

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