Avião, nem pensar. Freqüentador assíduo do Festival de Cannes, onde desde 1991 já ganhou sete prêmios diversos, inclusive a Palma de Ouro em 2000 com ‘‘Dancing in the Dark’’, este dinamarquês que já foi chamado de gênio, mistificador e marqueteiro em causa própria sempre vem à França por terra, a bordo de um trailer que ele mesmo dirige. São três dias de viagem de sua casa em Copenhague até a Côte d’Azur. ‘‘Não é lá tão terrível, assim tenho tempo de me preparar psicologicamente para enfrentar a loucura de Cannes nesses dias’’, diz ele sorrindo.
  Sempre polêmico, Lars von Trier está de volta este ano com mais um trabalho que ainda vai abrir muito espaço na mídia, para o bem ou para o mal. ‘‘Dogville’’, com suas três horas de projeção, é outro filme inteligente, original e inclassificável, uma obra que subverte as regras estabelecidas ao oferecer uma viagem quase experimental, mas sempre fascinante às fronteiras do teatro e do cinema. Ao contar a história de uma fugitiva que busca proteção numa pequena comunidade americana encravada nas Montanhas Rochosas, von Trier radicaliza de forma desconcertante. Sobre um vasto palco, nem paredes, nem portas ou janelas. Num plano visto do alto, tudo é sinalizado como marcas brancas no chão, como no teatro. Se a princípio o espectador fica ressabiado porque retiraram seus referenciais cenográficos tradicionalmente ‘‘realistas’’, ele logo vai esquecer o extremo despojamento da composição e se concentrar no drama humano que vai abalar a cidade de 15 habitantes e um cão.
  Como em todos os seus filmes anteriores, von Trier coloca na berlinda a perversidade, a crueldade universal do gênero humano. ‘‘Dogville’’, ou como uma comunidade explora a fraqueza de uma jovem em fuga, terminando por submetê-la à tortura física e psicológica. Mas a retribuição da moça é afinal apocalíptica. Este e outros temas foram os assuntos da entrevista que o diretor concedeu à Folha na última quarta-feira em Cannes.
  Por que a visão pessimista no filme?
  Não tenho uma visão pessimista dos homens. A crueldade é apenas um componente de nossa sociedade. Os personagens não são monstros, mas indivíduos que querem, como todo mundo, fazer tudo da melhor forma e em seu interesse. Há coisas boas e más em cada um de nós. São as circunstâncias que fazem surgir umas mais que as outras.
  Por que a escolha de excluir portas, paredes e janelas dos cenários, substituindo tudo isso por marcas no chão?
  Eu quero que todos se esqueçam do cenário para que valorizem os sentimentos dos personagens, que a experiência seja verdadeiramente psicológica. Mas mantive o som de portas abrindo e fechando para que todos tivessem a sensação de que estar em qualquer cidade do mundo, e não num lugar isolado.
  Dogville é uma cidade americana. Alguma razão especial?
  No Festival de Cannes de 2000, os jornalistas americanos me reprovaram porque ‘‘Dancing in the Dark’’, entre outros comentários sobre a América, condenava a pena de morte. Eles disseram que não era justo porque eu nunca tinha pisado lá. Diante dessa bobagem e desse atrevimento, decidi fazer não um mas logo três filmes já que história se passa nos Estados Unidos seguindo este personagem, Grace, através de diferentes episódios de sua vida. Acho não, tenho certeza: ‘‘Dogville’’ é meu fantasma da América. Por outro lado, acho que podemos fazer algumas brincadeiras com os Estados Unidos, afinal são tão poderosos...
  Esta não é definitivamente uma visão amável da América.
  Não creio que os americanos sejam piores que os outros, as pessoas são mais ou menos as mesmas em todos os lugares. Mas a vingança que inclui em ‘‘Dogville’’ é um sentimento tipicamente americano. Esta idéia de salvar o mundo pela armas tem um lado da velha Bíblia que eu detesto.
  Em ‘‘Dogville’’, a fronteira entre cinema e teatro é quase invisível. Por que essa opção?
  Fica ali entre os dois. O cenário e a direção são teatrais. Mas para os personagens quis que os atores interpretassem da maneira mais natural, sem nenhuma alteração vocal. Quando era mais moço, a televisão exibia muitas peças. É um pouco daquele teatro filmado nos anos 1970 que pretendi fazer.
  Vendo ‘‘Dogville’’ é possível pensar no teatro de Brecht, ‘‘Mahagony’’ e outras peças.
  Não sou um grande conhecedor da obra de Brecht, mas minha mãe me falava sempre, o citava regularmente. Mas sobretudo pensei em ‘‘Barry Lyndon’’ de Kubrick, que adoro. Trabalhei com várias lembranças que achavam que iriam servir bem: a narração dividida em capítulos, o ritmo lento da ação e o tom sarcástico do filme.
  Nicole Kidman foi mais fácil de dirigir do que Bjork?
  Nicole queria fazer o filme. Bjork queria sobreviver à experiência. Isto faz uma enorme experiência num set. Ela queria trabalhar comigo, por isso escrevi o papel de Grace para ela, sem conhecê-la muito bem. Apenas a tinha visto em ‘‘De Olhos Bem Fechados’’. Tenho muita admiração por Nicole, ela ousou fazer coisas que eu não a julgava capaz. ‘‘Dogville’’ é um filme em que você pode facilmente se perder. Nicole jamais se perdeu, ela mesma encontrou uma grande liberdade de expressão. É excitante pegar uma atriz de Hollywood e colocá-la num projeto como este. Ela sempre confiou em mim, e por isso sou muito grato a ela.
  Ela vai estar nos dois próximos episódios de sua trilogia ‘‘U S and A’’?
  Já temos um contrato por mais dois filmes. Por mim ela fará os três: duas Graces diferentes numa trilogia. Nicole é uma atriz inteligente que, acredito, não programa sua carreira em termos de sucesso ou de dólares.

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