Fala mansa, olhar enigmático, gestos contidos e raciocínio linear são características que chamam a atenção quando se conversa com o ator Carlos Vereza. Misto de aparente serenidade e circunspecção o ronda e deixa o interlocutor um pouco cauteloso. Ao ser abordado para uma entrevista, é direto: ''seja rápido''. OK, vamos lá! Mas basta a primeira pergunta para Vereza sentir-se confortável e falar sobre um personagem que incorporou e, de acordo com as projeções, deverá ser visto nos cinemas até o final do ano: Adolfo Bezerra de Menezes. O ator é o protagonista da cinebiografia do médico, jornalista, político e humanista que tornou-se célebre por difundir a doutrina kardecista - ou espírita, como queiram - em palavras e atos.
Vereza não diz se é o melhor personagem que interpretou em 48 anos de carreira. Deixa transparecer, no entanto, o orgulho de ter sido convidado para encarnar ''Bezerra de Menezes - O Médico dos Pobres''. Ele esteve presente na sessão promocional do docudrama durante a 5 Mostra Brasileira de Teatro Transcendental, realizada entre 14 e 19 de agosto, em Fortaleza (CE).
''Eu tive a honra espiritual de interpretá-lo. Não sei se fiz bem ou mal, mas uma coisa eu digo: minha alma está presente em cada take, em cada fotograma do filme'', analisa. E vai mais além: ''Dizer o texto, mentalizar e, acreditem ou não, sentir a presença do doutor Bezerra do Menezes durante as filmagens... Não dá para sair do projeto do mesmo jeito que entrei''.
Espírita há 19 anos, Carlos Vereza revela que estudar e praticar a doutrina ditada pelo professor francês Allan Kardec (1804-1869) o ajudou a ser mais introspectivo e ''tolerante com as pessoas''. ''A doutrina espírita passa pela sensatez'', afirma. Ele é médium de incorporação e voluntário do Lar Frei Luiz, no Rio de Janeiro.
Não esperem de Vereza um pregador, doutrinador ou algo semelhante. Deixa ele bem claro que para fazer ''Doutor Bezerra de Menezes - O Médico dos Pobres'' sua intenção foi, principalmente, dar vida a um humanista. ''Procurei me desvecilhar de qualquer dogma, qualquer tipo de sectarismo para não tentar passar mensagem. Acho insuportável passar mensagem'', avisa. Então, tá! É ver para crer.
O tom enfático de Carlos Vereza chega a ser desconcertante. Sim, a doutrina kardecista - compreendida, como explica, à luz da razão, filosofia e religiosidade - o ajudou a ter uma noção mais abrangente do mundo. Porém, não cegou sua visão crítica quanto aos rumos do País e até do mundo. Sem a menor cerimônia, diz que ''Bezerra de Menezes - O Médico dos Pobres'' deveria ser visto primeiramente pelo presidente Lula.
O motivo: ''Para ele aprender o que é um homem que falava e praticava o que falava'', diz, referindo-se aos focos de corrupção e escândalo que pipocam ali e acolá. ''Vejo um golpe alicerçado no Bolsa Família para manter um esquema de quadrilheiros no poder através do voto de pessoas sem informação'', dispara. Se tem esperança na humanidade. Tem sim, mas solta farpas. ''Eu gostaria que um disco voador enorme, e eu já vi, pousasse no Oriente Médio e desse um susto na rapaziada porque eles são filhos do mesmo tronco'', diz. Hum!
Aos 68 anos de idade, Carlos Alberto Vereza de Almeida já inscreveu seu nome nas artes brasileiras. No cinema, foi vital sua atuação, por exemplo, em ''Memórias do Cárcere''. Foi na televisão, entretanto, onde se popularizou através de personagens como Miro (na primeira versão de ''Selva de Pedra'', em 72), o corrupto senador Caxias ('' Rei do Gado'', 1996) e, mais recentemente, Augusto de ''Sinhá Moça''.
No teatro também deixou suas marcas. Ao palco retorna em setembro no recital ''Meu Fatal Lado Esquerdo'', que congrega textos de autores como Carlos Drummond de Andrade e Charles Chaplin até trechos de cartas de São Paulo com músicas de Villa-Lobos e Tom Jobim. O espetáculo fica em cartaz até dezembro na Sala Baden Powell, Rio de Janeiro, e depois sai em turnê. ''A arte é sempre intuida'', avisa.
Na voz de Vereza tudo ganha uma dimensão maior e inteligível. Sinais evidentes de quem transcende o lugar-comum e pensamentos curtos.

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