Em entrevista informal à imprensa estrangeira que se espremeu no pavilhão italiano, há dois meses durante o Festival de Cannes, o diretor da Mostra Internazionale d'Arte Cinematografica de Veneza, Moritz De Hadeln, não escondeu que pretendia organizar em 2003 um festival melhor que o concorrente francês, este ano visivelmente minado por circunstâncias atípicas - a recém-encerrada guerra no Iraque, a epidemia de SARS, a situação econômica européia, as greves no país e a ausência de pelo menos uma dezena de filmes de diretores famosos, não concluídos a tempo.
Aprovado ano passado no teste de fogo que foi seu primeiro festival veneziano, na ocasião De Hadeln, ex-diretor da mostra de Berlim, ''chorou'' alto e bom som, com certeza para sensibilizar os brios do governo Berlusconi: ''Bisogno pi— soldi !'' (preciso de mais dinheiro!), disse ele então referindo-se ao orçamento um tanto apertado para uma merecida celebração dos 60 anos do mais antigo festival de cinema do mundo. E parece que a lamentação deu certo: ganhou uma dotação extra de 700 mil euros (cerca de R$ 2 milhões e 300 mil) já garantidos pela Bienale, a entidade organizadora do evento e garantiu ainda apoio redobrado dos parceiros da iniciativa privada.
Assim, de 27 de agosto a 6 de setembro, está prevista uma mostra para ficar na história não apenas de Veneza, mas da disputada galeria dos festivais internacionais. Não é segredo que o certame veneziano, que há algumas décadas gozou de prestígio ainda maior que o de Cannes, vem tentando recolocar-se acima do festival da Costa Azul. E há outro motivo para que o festival seja especialmente grande em 2003: a Bienal de Artes, inaugurada mês passado, está completando 50 anos, é a melhor dos últimos tempos e vem registrando uma visitação recorde no tórrido verão de Veneza.
A começar pela seleção oficial, que será divulgada durante coletiva em Roma, no dia 31 próximo. De olho no melancólico vácuo deixado pela seção competitiva de Cannes, De Hadeln não tem descansado nas últimas semanas, em busca de uma cesta essencial recheada de grandes nomes. ''O cinema é como vinho'', disse ele. ''Há safras boas e outras nem tanto. Estamos em plena seleção e estamos escolhendo quais títulos levar a Veneza. E o cinema também não é apenas um acontecimento com filmes, mas é organização, mercado, serviços. A receita primordial, no entanto, é: grandes nomes em concurso e um oceano de glamour''.
Por enquanto apenas especulações, mas com forte tendência a compor a lista, as presenças de Bernardo Bertolucci ( I Sognatori); Wong Kar Wai (''2046''); Ingmar Bergman (''Saraband''); Joel e Ethan Coen (''Intolerable Cruelty''); Quentin Tarantino (a primeira parte de ''Kill Bill''); Theo Anghelopoulos (''Il Prato in Lacrime''); John Sayles (''Casa de los Babys''); Emir Kusturica (''Hungry Hearts''); Jane Campion (''In the Cut''); Robert Benton (''The Human Stain''); Robert Altman (''The Company''); Ridley Scott (''Matchstick Men''); Jacques Rivette (''Marie et Julien''). Existe a possibilidade de o recém-concluído filme de Walter Salles, ''Diários da Motocileta'', entrar em uma das mostras. Entre os italianos, estão cotados títulos de Gianni Amélio, Ermano Olmi, Marco Bellochio e Paolo Virzi. E controlada a epidemia de SARS, o Oriente deve fazer carga pesada em Veneza.
Em relação ao glamour, ingrediente que funciona como uma espécie de afrodisíaco para a imprensa e para o público que acorre todos os anos à ilha do Lido, sede do festival, De Hadeln está apostando todas as fichas na presença de um multi-elenco estelar, garantindo charme e carisma de vários continentes. Além de atores e atrizes dos filmes selecionados, há sempre a circulação intensa de convidados na categoria ''figuração''. Uma novidade para esta edição também foi anunciada em Cannes: o mercado de filmes foi qualitativa e quantitativamente incrementado, ganhando novo, amplo e modernizado espaço de 500 metros quadrados no Hotel Excelsior, buscando estar pelo menos próximo à excelência do ''marché'' de Cannes.

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