Há duas semanas, desde o incêndio do Cine-Teatro Universitário Ouro Verde, a comunidade artística de Londrina tem discutido em encontros informais e em redes sociais um projeto de reconstrução para aquele espaço cultural que completará 60 anos de história em dezembro.
Ontem, técnicos do Patrimônio Cultural do Paraná e do Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) visitaram pela primeira vez o local após a tragédia do último dia 12. Enquanto aguardam providências e definições, os produtores culturais seguem debatendo o futuro do espaço
Há quem defenda o resgate do funcionamento do cinema, que foi desativado no início do anos 2000. Há quem prefira priorizar apresentações teatrais. E há aqueles que projetam um espaço multi-uso. O cineasta e professor universitário Anderson Craveiro integra este último bloco. ''Sou farovável a uma estrutura de cine-teatro, de um espaço múltiplo e multimídia que se utilize da tela para projeção em espetáculos teatrais e preserve o palco para concertos musicais'', diz.
Ele lembra que quando se mudou para Londrina, em 2001, já não havia sessões de cinema no local. ''Mas acho que o cinema deve ser retomado, inclusive para ampliar salas na cidade para filmes de arte, títulos não-comerciais e toda a produção independente. Seria também um espaço para sediar a Mostra de Cinema e outros festivais, já que Londrina vive um momento de grande produção audiovisual'', completa.
O diretor da companhia teatral Casa das Fases, João Henrique, assinala que a UEL (administradora do Ouro Verde) ''já conta com o Cine Com-Tour'' para suprir as carências dos espectadores da sétima arte, não havendo a necessidade de uma outra sala de exibição. ''O que falta é um teatro, mas um teatro com coxia e com todos os mecanismos de um teatro decente que esteja de acordo com os melhores padrões de uma caixa cênica moderna. Estou na torcida para que ele seja viabilizado'', salienta.
Esse desejo é compartilhado pelo músico e maestro Vitor Gorni, membro-fundador da Orquestra Sinfônica da UEL, que também é contrário à retomada do cinema. Para ele, o projeto de reconstrução deveria manter a funcionalidade anterior ao incêndio. ''O Ouro Verde era o único teatro que servia como espaço para eventos culturais de grande público'', salienta. ''Só acho que um projeto de reconstrução deve preservar a fachada arquitetônica original e ao mesmo tempo realizar adequações internas na acústica, no palco e no camarim''.
Autora de dois livros sobre a arquitetura em Londrina, Juliana Suzuki defende a recuperação das características originais da obra projetada por Vilanova Artigas e Carlos Cascaldi na década de 50. ''Isso pressupõe que o cinema fosse mantido'', diz. ''Mas não vejo problema em se manter o binômio cinema-teatro. É uma tendência dos espaços culturais contemporâneos que eles tenham a capacidade de abrigar múltiplas funções. O processo de reconstrução é uma tarefa complexa que deve mediar o respeito às características originais, mas também introduzir melhorias para otimizar seu funcionamento como teatro'', sublinha.

'Quebra-galho'
O crítico de cinema e curador do Cine Com-Tour, Carlos Eduardo Lourenço Jorge, prefere desconversar sobre os destinos do Ouro Verde, do qual foi responsável pela programação cinematográfica durante algumas décadas. ''Essa discussão deve ser feita após as providências tomadas em conjunto pelo Governo do Estado, UEL, Iphan e Ministério da Cultura'', diz.
Para ele, há ''um equívoco imenso'' em especular sobre esse assunto no momento atual. ''O enfoque da comunidade deve ser o Teatro Municipal, cuja construção foi posta de lado por sucessivos prefeitos exatamente porque o Ouro Verde sempre serviu de quebra-galho para o poder público municipal. Qualquer cidade mediana do interior de São Paulo possui seu teatro. Por que Londrina não possui? Tivemos oito ou nove prefeitos que adiaram sistematicamente sua construção. Vamos deixar que os técnicos e arquitetos decidam o que deve ser o Ouro Verde. Depois podemos discutí-lo. Agora devemos nos debruçar sobre o Teatro Municipal'', assinala.
O debate está aberto.

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