São Paulo, 03 (AE) - André Sturm está de malas prontas para embarcar para Berlim, onde vai participar do festival de cinema, que começa na semana que vem. Mas, desta vez, Sturm não vai apenas para assistir a filmes e fazer novas aquisições para sua distribuidora, a Pandora. Ele vai com intenções bem específicas: pretende renegociar os prazos e formas de pagamento de filmes que adquiriu no ano passado. São os efeitos da desvalorização do real em relação ao dólar.
"Ainda não é o caso de pedir moratória, mas espero contar com a compreensão desses distribuidores por causa da turbulência que atinge a economia brasileira", diz Sturm. Ele assinou contrato, mas ainda não efetuou o pagamento, para obter os direitos de distribuição de filmes como "Felicidade", de Todd Solondz, "Place Vêndome", de Nicole Garcia, e "Cosí Ridevano", de Gianni Amelio, que ganhou o Festival de Veneza do ano passado. "Negociei esses filmes com o dólar a R$ 1,20 e hoje as condições são outras; não tenho como pagar os novos valores".
Ele observa que o problema já é sério e pode ficar pior. "Compro filmes em dólar e a minha receita é em real". Não se trata apenas de aumentar custos, o que, por si só, já seria preocupante. Trata-se também de diminuir receitas. "Com o real valendo menos, o público pensa duas vezes antes de ir ao cinema". É o que também observa Adhemar Oliveira, do Espaço Unibanco de Cinema. Oliveira representa outra ponta do mercado de cinema, a exibição. Ele assinala que ainda é cedo para avaliar os efeitos da crise.
"A médio e longo prazo, se a situação persistir, teremos problemas para comprar insumos e peças de reposição; nesse setor, é tudo importado, tudo dolarizado". Mas Oliveira assinala que o público já diminuiu nas suas salas. "Não falo do fim de semana, mas durante a semana". Ao menor sinal de turbulência na economia, o público começa cortando o lazer. "Depois, as pessoas acostumam-se e retomam à normalidade", ele diz, "mas o primeiro movimento é sempre de retração".
Os efeitos não atingem tanto as grandes distribuidoras americanas, que já chegam aqui com os filmes pagos. "É tudo lucro", diz um executivo que pede para não ser identificado. "Mas todos sentimos a retração do público", ele afirma. Diretor-executivo da área de lançamentos da Lumire, Bruno Wainer vale-se dos títulos de dois lançamentos da sua distribuidora para analisar a situação. "A princípio, reagimos com pânico (a Lumire distribui Pânico 2), mas depois percebemos que a vida é bela (ele também distribui o filme de Roberto Benigni que estréia na sexta)".
A Lumire tem um acordo para distribuição dos filmes da empresa americana Miramax no Brasil. "Eles estão sendo supercompreensivos com o que ocorre no Brasil; não estão nos pressionando", diz. A parceria deve continuar e a expectativa é pelo que acontecerá nos próximos meses. Bruno Stroppiana, da Sky Light, é produtor de filmes como O Xangô de Baker Street, baseado no best seller de Jô Soares, e Estorvo, adaptado por Ruy Guerra do livro de Chico Buarque. "Tenho de fazer algumas cenas do primeiro em Londres, em abril", ele conta.
O custo dessa filmagem, que já estava orçado, praticamente duplicou. "O problema do cinema é que ele segue os rumos de qualquer aumento", diz Stroppiana. "Se o custo de vida aumentar 10% por causa dessa crise, os custos do cinema aumentam também, pois é preciso alimentar, transportar e dar alojamento às pessoas que participam das equipes técnicas e artísticas". A médio e longo prazo, ele prevê outros problemas. "O filme virgem é dolarizado, os equipamentos também; ainda não estamos sentindo os reflexos, mas eles virão".

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