Cinema rebelde francês
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 22 de março de 2010
Nelson Sato<br> Reportagem Local 
A ''nouvelle Vague'', movimento francês que renovou a linguagem cinematográfica no final dos anos 50, recebe periódicas homenagens no Brasil com a realização de ciclos de seus principais filmes. Nesta semana, a Sala de Espetáculos do Sesc de Londrina exibe uma mostra com os longas de estreia de três diretores que fizeram história na época: François Truffaut (1932-1984), Alain Resnais e Jean-Luc Godard.
Os três eram críticos da revista ''Cahiers du Cinéma'' e, inconformados em só escrever sobre criações alheias, resolveram pegar na câmera. Com seus filmes, ajudaram a expandir a estética do audiovisual influenciando realizadores em todo o mundo. A programação começa hoje, às 20h, com a projeção em telão de ''Os Incompreendidos (Les 400 coups)'', de Truffaut. Rodado em 1959, o filme trata das errâncias de um menino rebelde (''Antoine Doinel'') pelas ruas de Paris.
O garoto, interpretado por Jean-Pierre Léaud, mata aula, envolve-se em confusões, é preso e foge. De acordo com a crítica, o personagem teria traços autobiográficos, já que Truffaut também teve uma infância complicada, sendo até internado em um reformatório. Não por acaso, o diretor retornaria ao personagem em outros quatro filmes, mantendo inclusive o mesmo nome em três deles. ''Os Incompreendidos'' explora à exaustão um dos recursos que mais marcaram a turma: a câmera solta, que permitia maior mobilidade aos filmes.
''Hiroshima, meu amor (Hiroshima mon amour)'', de Alain Resnais, é a atração de amanhã, no mesmo horário. Também produzida em 1959, essa obra é considerada um marco revolucionário no cinema ao romper com a narrativa convencional e instaurar a fragmentação formal. Nela o complexo som-imagem-movimento não está a serviço de uma trama com começo, meio e fim, mas em função de um rico universo de sugestões.
Com roteiro da escritora Marguerite Duras, o filme conta a história de amor entre um arquiteto japonês (interpretado pelo ator Eiji Okada) e uma atriz francesa (Emmanuélle Riva) propondo uma inovadora reflexão sobre o amor, a memória e a guerra. Na época, o crítico carioca José Lino Grunewald não conteve o entusiasmo e assinalou: ''Orson Welles esperou dezenove anos por outro cineasta que surgisse com um filme tão revolucionário quando 'Cidadão Kane'. A revolução agora é 'Hiroshima, meu amor'; o autor, Alain Resnais''.
Ficou para quinta-feira o título mais famoso da geração nouvelle vague: ''Acossado (À bout de souffle)'', de Jean-Luc Godard. Rodado em 1960, esse longa é invariavelmente destacado nas listas de melhores filmes de todos os tempos, quase sempre colocado entre os dez primeiros pelos críticos. O ator Jean-Paul Belmondo, aos 26 anos, encarna o vagabundo ''Michel Poiccard'' - um anti-herói, homem desajustado sobre o qual nunca se explica de onde vem, como se formou e para onde iria.
Ele rouba um carro, mata um policial e se envolve com a estudante americana ''Patricia Franchisi'' (Jean Seberg). A história segue mostrando um sujeito pouco interessado em seu próprio futuro, vivendo cada momento como o mais importante, marca indubitável da influência existencialista que a Nouvelle Vague recebeu. O perfil do personagem foi assim descrito pelo crítico Luiz Carlos Merten no livro ''Cinema - Um zapping de Lumiere a Tarantino'': ''Essencialmente um homem das ruas, irreverente e sedutor, um feio charmoso ao qual as mulheres não sabiam dizer não''.
Belmondo ainda homenageia Humphrey Bogart imitando seus cacoetes, como passar a unha nos lábios. Godard criou um filme de perseguição espirituoso, romântico e inovador. Com seus cortes rápidos, passou a ser a principal influência no cinema americano dos anos 60.
SERVIÇO
■ Mostra Nouvelle Vague
Quando - Hoje, amanhã e quinta-feira, 20h
Onde - Sala de Espetáculos do Sesc Londrina (Rua Fernando de Noronha, 264)
Mais informações - (43) 3378-7829 e 3378-7800


