Curitiba - O cineasta Jorge Furtado diz estar incluindo numa espécie de movimento não organizado que pretende produzir trabalhos populares sem perder a qualidade. Caso esse movimento ganhe estatuto, ''O Homem Que Copiava'', mais recente longa do cineasta, é um forte candidato a representá-lo. O filme, que já foi exibido em sessão fechada para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, está sendo apresentado em diversas capitais, antes de estrear em circuito nacional no próximo dia 13. Na última terça-feira, o longa foi exibido para jornalistas e convidados em Curitiba, seguido de coletiva com o diretor.
A princípio, o filme bem que poderia dar uma espécie de fôlego à onda de retratar a violência social e urbana no País nas telas de cinema. É quase um conto de fadas. Mas só numa primeira observação. Um pouquinho que seja de atenção já é o suficiente para perceber que ''O Homem'' é tão denso quanto ''Cidade de Deus''. E a comparação só vale porque o filme de Fernando Meireles é sem dúvida um marco no cinema nacional. A diferença entre os dois é que ''O Homem que Copiava'' é muito mais palatável e saboroso.
Na primeira cena do filme, o protagonista André (Lázaro Ramos) vive um dilema diante do caixa do supermercado. Ele tem R$ 11,50 para pagar uma conta de R$ 11,30, sem computar os fósforos. Mas ele precisa dos fósforos e estes custam R$ 1,20. A realidade e minúcia com que é tratado esse tipo de detalhe no longa é explicada por Furtado: ''o dinheiro pode estar ausente na dramaturgia, mas está muito presente na vida das pessoas e é uma questão fundamental. Por isso, o quinto personagem do filme é o dinheiro'', argumenta.
O filme tem basicamente quatro personagens. André, Sílvia (Leandra Leal), Cardoso (Pedro Cardoso) e Marinês (Luana Piovani). Eles tem algumas coisas em comum: são jovens, não tem profissão e são duros. Não têm nenhum dinheiro e nenhuma perspectiva de consegui-lo.
Depois de escolher deixar a carne (para poder levar os fósforos), André um operador de fotocopiadora de uma papelaria ainda vai ter que passar por outro problema, a tentativa desesperada de conseguir R$ 38,00 para ter contato com Silvia, atendente de uma loja de roupas por quem está apaixonado.
Furtado costuma dizer que um enredo é só um mecanismo para prender a atenção do espectador. ''Entre o começo e o fim desse enredo, você pode colocar o que quiser''. E é exatamente isso que o cineasta faz. Para contar a aparentemente simples história de André, quase um herói romântico, o diretor se vale de recursos quase infinitos. E muitas outras pequenas histórias poderiam ser contadas e aprofundadas, como o abandono do pai de André e a violência sofrida por Silvia, por exemplo.
A recomendação inicial seria ''veja o filme e divirta-se'', porque acima de tudo, trata-se de um comédia romântica. Mas é impossível não notar as inúmeras referências utilizadas. De Shakespeare (a mais óbvia, na forma de um soneto lido até o penúltimo verso), a Keith Haring nas sutis reproduções em camisetas. Houve até quem questionou, durante a coletiva com o diretor, se o final do filme foi baseado no livro ''Carta a Meu Pai'', de Franz Kafka.
Exageros à parte, o diretor revela que essa miscelânea de coisas e referências utilizadas muitas vezes de forma caótica foi absolutamente proposital. ''As pessoas tem um conhecimento fragmentado e o André é assim, ele sabe pouco de muita coisa'', diz, fazendo uma comparação a si próprio. ''Eu estudei medicina, psicologia, artes plásticas, jornalismo, e agora meu trabalho é uma colagem de tudo. Eu queria fazer um filme que tivesse essa colagem'', revela.
Para Furtado, ''O Homem'' é o trabalho que mais se assemelha a ''Ilha das Flores'', curta realizado na década de 80 responsável por sua projeção nacional e internacional. Principalmente no que diz respeito a uma narrativa quase didática. André é um operador de fotocopiadora e no filme, o personagem dedica pelo menos 10 minutos para ensinar como operar a máquina. No longa, um simples apertar de botão automático pode ter proporções gigantescas.
Mas André tem sonhos. Muitos deles, já que nenhuma garota quer ''casar com um operador de fotocopiadora''. Quando não está na loja ou observando Silvia através de um binóculo que comprou depois de economizar durante um ano, André está desenhando. No filme, as ilustrações animadas (assinadas por Allan Sieber) também aparecem como recurso para contar a história, o presente, o passado e o futuro de André.
André é o único personagem que não tinha ator definido quando Furtado estava escrevendo o roteiro. ''Eu escrevi os personagens do Pedro Cardoso, Leandra Leal e da Luana Piovani para eles'', conta o diretor e roteirista. Ele já havia trabalhado com o elenco antes, em episódios de televisão que dirigiu para a Rede Globo, mas essa foi a primeira vez que trabalhou com Lázaro Ramos. ''Hoje não consigo imaginar o André de outro jeito'', diz.
O longa foi viabilizado com orçamento de R$ 3 milhões, com apoio da Casa de Cinema de Porto Alegre. A história é ambientada e rodada na capital gaúcha, cidade natal de Furtado. Aliás, mesmo para quem não conhece a cidade, é impossível não perceber isso no sotaque gaúcho carregado reproduzido pelos atores.
O filme entra em circuito nacional no próximo final de semana e já começa a ser inscrito em festivais. Apesar das boas críticas que tem recebido nas cidades em que foi exibido, Furtado prefere esperar a manifestação do público. ''A crítica não reverte em público'', diz, escaldado com os problemas de distribuição do cinema brasileiro. O primeiro longa dirigido por ele, por exemplo (''Houve Uma Vez, Dois Verões'' - 2002) nem chegou a ser exibido nas salas de cinema de Curitiba e já pode ser encontrado em vídeo e DVD nas locadoras. Essa é a realidade.

mockup