Geralmente não são irmãos muito frequentes. Quando o filme se pretende popular, acaba escapando nas tintas popularescas e se afasta muito da irmã qualidade. Esse não é o tom de ''Boca de Ouro'' (BRA, 1962, 100 minutos), adaptação que Nelson Pereira dos Santos realizou de peça homônima de outro Nelson, o Rodrigues. O filme é o que a Mostra Cinema Falado promovida pela Biblioteca Pública de Londrina oferece hoje, a partir das 18h30, no Teatro Zaqueu de Melo, com entrada franca.
Fica uma pergunta: Como é que os dois 'Nelson' criaram uma obra popular e primorosa? Um dos fatores fundamentais para esse resultado foi o texto do dramaturgo. Nelson Rodrigues lia de tudo, desde Dostoievski até a realidade do porto que frequentava aos 12 anos atrás das polacas (prostitutas da época). Essa mistura de tragédia clássica com o realismo suburbano produziu textos maravilhosos, como aqueles que integram a coletânea de contos ''A Vida Como Ela É''. Geralmente as ações se concentram sobre personagens perturbados, que não têm consciência do que os aflige, mas agem incisivamente sob o poder de dois extremos a razão e o instinto. Por isso encontram-se em tantas obras de Nelson personagens ao mesmo tempo puras e nefastas, cândidas e perversas, castas e obscenas. É o que Nelson mais gostava de retratar.
O cineasta Nelson Pereira dos Santos, no entanto, estava acostumado a temas sérios, como seus retratos cariocas ''Rio Zona Norte'' e ''Rio 40 Graus''. Mas isso não o impede de conduzir magistralmente a história do assassinato de um famoso banqueiro do jogo do bicho, o Boca de Ouro. A morte desse bicheiro provoca comoção no subúrbio de Madureira e recebe uma versão diferente a cada vez que é contada.
O roteiro escrito pelo cineasta mantém o estilo coloquial de Nelson, preservando as expressões obsessivas. Fotografado por Amleto Daissé (o mesmo de ''O Assalto ao Trem Pagador'') e montado por Rafael Justo Valverde, o filme foi bem aceito pelo público. O ritmo ágil da história e as verdades ocultas de cada personagem vão prendendo o espectador em uma teia infinita, em que ninguém sabe mais o que realmente ocorreu com Boca de Ouro.
Um dos destaques do filme é a atuação de Jece Valadão, aliás, um dos financiadores da fita. Jece queria fazer cinema comercial. Conseguiu. Após essa produção, sucesso de público no Rio, Jece pôde financiar no ano seguinte outra adaptação rodriguiana: ''Bonitinha, mas Ordinária''.
Existe uma readaptação de ''Boca de Ouro'' feita em 1990, de Walter Avancini, que está disponível em VHS. Por incrível que pareça, essa versão original do filme não foi lançada em vídeo, o que não é incomum quando se fala de obras-primas do cinema brasileiro. Se o leitor puder conferir o filme hoje no fim da tarde, certamente não se esquecerá de algumas cenas, como o olhar perverso de Valadão, a morte de Leleco (Daniel Filho) e a graça traiçoeira de Guigui (Odete Lara). Um filme único na carreira de Nelson e um caminho certo para o cinema brasileiro cinema popular que não subestima o público.

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