Cinema para educar os filhos
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 15 de junho de 2009
Sérgio Rizzo<br> Folhapress 
O cinema educa? Discute-se o tema desde o final dos anos 20, quando as primeiras reações conservadoras aos costumes difundidos pelos filmes de ficção geraram propostas de criação de um bom cinema que pudesse se contrapor aos maus exemplos da produção comercial (e, idealmente, substituí-la).
Essa turma ficaria escandalizada se soubesse que, décadas mais tarde, um homem de 50 anos aceitaria que o filho adolescente deixasse a escola desde que assumisse o compromisso de assistir, com o pai, a pelo menos três filmes por semana. Apenas sentar no sofá, ver e, por fim (mas não obrigatoriamente), conversar.
De Sindicato de Ladrões (1954) a O Sopro no Coração (1971), de Interlúdio (1946) a Caminhos Perigosos (1973), longas em DVD formaram o conteúdo programático da experiência familiar insólita descrita pelo canadense David Gilmour em O Clube do Filme.
Na contracorrente do pensamento pedagógico convencional, a ideia não esgota sua originalidade em acreditar que se possa aprender algo sobre o mundo vendo filmes em vez de ir à escola. O hábito de pai e filho sentarem lado a lado, por três anos, sugere também proximidade e cumplicidade raras nas atuais famílias urbanas.
Sabia que não estava dando a Jesse uma educação sistemática em cinema, diz Gilmour, no livro. Não era esse o objetivo. Poderíamos estar praticando mergulho, ou começando uma coleção de selos. Os filmes simplesmente funcionavam como um pretexto para passarmos um tempo juntos [...] e abriam portas para conversas.
Seu relato afetuoso dessas tardes registra dúvidas quanto ao sentido do que faziam (estaria ele contribuindo para que o filho fosse obrigado a ter empregos precários no futuro?), flagra o processo de amadurecimento de Jesse e, claro, recupera um pouco do que conversavam. Educar filhos equivaleria a uma sequência de despedidas, um adeus após o outro - às fraldas, aos agasalhos de neve, depois às próprias crianças.
No fundo, o livro recria um longo e rico processo de adeus entre pai e filho, talvez mais significativo para o primeiro que para o segundo. Ao fazer isso, pode inspirar os que enfrentam o desafio de criar jovens para a autonomia sem saber ao certo até onde segurá-los e a partir de onde soltá-los, ou mesmo empurrá-los.


