CINEMA O gosto amargo do Oscar
PUBLICAÇÃO
sábado, 22 de março de 2003
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
O hipnótico megashow de todos os anos deve continuar hipnótico hoje a partir das 11 da noite (horário de Brasília) no Kodak Theatre, em Los Angeles. Mas não pelas habituais motivações mundanas, desfile de chiques, carisma de famosos, idiossincrasias de menos votados, extravagâncias de anônimos. O espetáculo do Oscar, com transmissão direta para um público estimado em cerca de um bilhão e meio de telespectadores - a rede ABC já avisou que pode interromper a transmissão a qualquer momento para acompanhar ao vivo o desenrolar dos combates - deverá ter outra modulação, uma vez que lá fora continuam em andamento um tempo de guerra e um tempo de dor. Como não foi adiada, o que seria de bom tom, espera-se agora que a festa preparada pelo diretor Gilbert Cates e apresentada pelo comediante Steve Martin - é seu sétimo ano como mestre de cerimônias - seja calibrada em compasso bem mais discreto, temperada pelo recato e por uma certa austeridade. A retirada do tradicional tapete vermelho e a suspensão das sempre concorridas sessões de fotos e entrevistas vips na chegada ao teatro foram as prudentes decisões tomadas assim que explodiram as primeiras bombas. Do lado de fora, nesta edição do prêmio, deverão estar cerca de 2 mil manifestantes contrários à guerra.
Ao interesse pelas premiações soma-se neste momento um outro, circunstancialmente bem mais sedutor, como novidade alternativa para uma cerimônia quase sempre arrastada e sonolenta. As apostas migraram: dos filmes e atores para as probabilidades de manifestações políticas em decorrência da guerra. Quem dirá o quê, contra ou favor de quem? Sabe-se que os textos são previamente escritos, e que os apresentadores de prêmios devem se ater àquilo que lhes é mostrado. Já os premiados podem improvisar à vontade, mas este ano com tempo reduzido para apenas 45 segundos. Protestos formais viriam dos inglêses Stephen Daldry (candidato a melhor diretor por ''As Horas'') e Daniel Day-Lewis (concorrendo a melhor ator por ''Gangues de Nova York''), do budista Richard Gere (nominado para coadjuvante por ''Chicago'') e da veterana ativista Susan Sarandon. Pode também vir chumbo grosso de Michael Morre, diretor do documentário ''Bowling for Columbine'', candidato a melhor filme na categoria. Moore é considerado o inimigo público número um da indústria americana de armas. Por sua vez, o diretor finlandês Aki Kaurismaki, que concorre ao Oscar de filme estrangeiro com ''O Homem Sem Passado'', mandou carta ao presidente da Academia, Frank Pierson, afirmando que ''não participa da gala do Oscar enquanto simultaneamente o governo dos Estados Unidos está cometendo um crime contra a humanidade com o propósito de resguardar vergonhosos interesses econômicos''.
A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, em essência conservadora e de olho no exemplo recente do Prêmio Goya espanhol - quando o palco foi transformada em veemente tribuna anti-guerra - deve ter se resguardado ao máximo contra a possibilidade de contestação mais pesada - embora esteja mantendo as aparências e não tenha feito nenhuma censura prévia. Mesmo ''isenta'', nomes ''perigosos'' como Sean Penn, Martin Sheen, Danny Glover, Jéssica Lange, Tim Robbins, Salma Hayek, George Clooney, Angelina Jolie, Barbra Streisand, Robert Redford e Warren Beatty não devem ter acesso ao microfone. Por outro lado, podem surgir manifestações pró Bush e a favor da guerra, se, por exemplo, Bruce Willis for um dos convidados. O protesto light, contrário à guerra, tem duas vertentes: os que anunciaram que não vão à cerimônia - Will Smith, sr. e sra. Tom Hanks, Cate Blanchett - e os que vão mas pretendem manter um comportamento ''low profile'': Julianne Moore (duplamente candidata, por ''As Horas'' e ''Longe do Paraíso''), Ben Affleck e Dustin Hoffman já avisaram que apenas usarão nas roupas bótons ou adesivos pela paz.
Confira os indicados
ao Oscar 2003
Melhor Filme
''Chicago''
''Gangues de Nova York''
''The Hours''
''O Senhor dos Anéis - As Duas Torres''
''O Pianista''
Melhor Diretor
Rob Marshall (''Chicago'')
Martin Scorcese (''Gangues de Nova York'')
Stephen Daldry (''The Hours'')
Roman Polanski (''O Pianista'')
Pedro Almodovar (''Fale com Ela'')
Melhor Filme Estrangeiro
''O Crime do Padre Amaro'' (México)
''Hero'' (China)
''O Homem Sem Passado'' (Finlândia)
''Nowhere in Africa'' (Alemanha)
''Zus & Zo'' (Holanda)
Melhor Ator
Adrien Brody (''O Pianista'')
Nicolas Cage (''Adaptacao'')
Michael Caine (''The Quiet American'')
Daniel Day-Lewis (''Gangues de Nova York'')
Jack Nicholson (''As Confissoes de Schmidt'')
Melhor Atriz
Salma Hayek (''Frida'')
Nicole Kidman (''The Hours'')
Diane Lane (''Unfaithful'')
Juliane Moore (''Far From Heaven'')
Renee Zellweger (''Chicago'')
Melhor Ator Coadjuvante
Chris Cooper (''Adaptacao'')
Ed Harris (''The Hours'')
Paul Newman (''Estrada para Perdicao'')
John C. Reilly (''Chicago'')
Christopher Walken (''Prenda-me se For Capaz'')
Melhor Atriz Coadjuvante
Kathy Bates (''As Confissoes de Schmidt'')
Julianne Moore (''The Hours'')
Queen Latifah (''Chicago'')
Meryl Streep (''Adaptacao'')
Catherine Zeta-Jones (''Chicago'')
Melhor Fotografia
''Chicago''
''Far From Heaven''
''Gangues de Nova York''
''O Pianista''
''Estrada para Perdicao''
Melhor Filme de Animação
''A Era do Gelo''
''Lilo & Stitch''
''Spirit: O Corcel Indomável''
''Spirited Away''
''O Planeta do Tesouro''
Melhor Direção de Arte
''Chicago''
''Frida''
''Gangues de Nova York''
''O Senhor dos Anéis - As Duas Torres''
''Estrada para Perdicao''
Melhor Figurino
''Chicago''
''Frida''
''Gangues de Nova York''
''The Hours''
''O Pianista''
Melhor Documentário
''Jogando Boliche para Columbine'' (Michael Moore)
''Daughter from Danang'' (Gail Dolgin e Vincente Franco)
''Prisoner of Paradise'' (Malcolm Clarke e Stuard Sender)
''Spellbound'' (Jeffrey Blitz e Sean Welch)
''Winged Migration'' (Jacques Perrin)
Melhor Documentário de curta-metragem
''The Collector of Bedford Street'' (Alice Elliot)
''Mighty Times: The Legacy of Rosa Parks'' (Robert Hudson e Bobby Houston)
''Twin Towers'' (Bill Guttentag e Robert David Port)
''Why Can't We Be a Family Again?'' (Roger Weisberg e Murray Nossel)
Melhor Edição
''Chicago''
''Gangues de Nova York''
''The Hours''
''O Senhor dos Anéis - As Duas Torres''
''O Pianista''
Melhor Maquiagem
''Frida''
''A Máquina do Tempo''
Melhor Trilha Sonora
''Prenda-me se For Capaz''
''Far From Heaven''
''Frida''
''The Hours''
''Estrada para Perdição''
Melhor Canção
''Burn it Blue'' (''Frida'')
''Father and Daughter'' (''The Wild Thornberrys Movie'')
''The Hands that Built America'' (''Gangues de Nova York'')
''I Move On'' (''Chicago'')
''Lose Yourself'' (''8 Mile'')
Melhor Curta-metragem de Animação
''The Cathedral'' (Tomek Baginski)
''The ChubbChubbs!'' (Eric Armstrong)
''Das Rad'' (Chris Stenner e Heidi Wittlinger)
''Mike's New Car'' (Pete Docter e Roger Gould)
''Mt. Head'' (Koji Yamamura)
Melhor Curta-Metragem de Ação
''Faith D'Hiver'' (Dirk Belien e Anja Daelemans)
''I'll Wait for the Next One (J'Attendrai Le Suivant.)'' (Phillipe Orreindy e Thomas Gaudin)
''Inja (Dog)'' (Steven Pasvolsky e Joe Weatherstone)
''Johnny Flynton'' (Lexi Alexander e Alexander Buono)
''This Charming Man (Der Er En Ynding Mand)'' (Martin Strange-Hansen e Mie Andreasen)
Melhores Efeitos Sonoros
''Chicago''
''Gangues de Nova York''
''O Senhor dos Anéis - As Duas Torres''
''Estrada para Perdicao''
''Homem-Aranha''
Melhor Edição de Som
''O Senhor dos Anéis - As Duas Torres''
''Minority Report''
''Estrada para Perdicao''
Melhores Efeitos Visuais (Especiais)
''O Senhor dos Anéis - As Duas Torres''
''Homem-Aranha'
''Star Wars 2 - O Ataque dos Clones''
Melhor Roteiro Adaptado
''About a Boy''
''Adaptacao''
''Chicago''
''The Hours''
''O Pianista''
Melhor Roteiro Original
''Far From Heaven''
''Gangues de Nova York''
''Casamento Grego''
''Fale com Ela''
''E Sua Mãe Tambem''
OS MAIS INDICADOS
''Chicago'' 13
''Gangues de Nova York'' 10
''As Horas'' 9
''O Pianista'' 7


