Um homem, uma mulher. Para ambos, resistir ao amor é muito natural. Quase instintivo. Ele acredita que todas as mulheres são dissimuladas. Ela, por sua vez, se vê cansada demais para investir em relacionamentos. Até que... Bem, a trama e principalmente o final poderia ser previsível não tivesse sido imaginada por Clarice Lispector no romance ''Cidade Sitiada''. Captar a densidade psicológica que envolve os personagens e transpor isso para as telas foi o grande desafio da cineasta Josiane Orvatich. Que acaba de concluir as filmagens de ''Os Primeiros Desertores'', seu primeiro curta-metragem ficcional cujo nome foi extraído do penúltimo capítulo do livro da mítica escritora, ambientado em 1920 e publicado em 1949.
Para Josiane, nascida em Maringá e radicada em Curitiba, a obra de Clarice Lispector sempre foi muito familiar. Mas em 99, deixou-se arrebatar de vez ao pousar os olhos nas intricadas linhas da história de renúncia amorosa contida no romance. ''Quando cheguei a esse capítulo resolvi que esse seria o meu curta'', disse ela, em entrevista à Folha2, por telefone. Para a cineasta, também responsável pelo roteiro, essa parte do livro tem vida própria, daí o motivo de o telespectador, como acredita, não ter maiores problemas em compreender a adaptação da obra.
''Os Primeiros Desertores'' foi rodado em apenas oito dias o fim das filmagens aconteceu na última segunda-feira. As locações escolhidas foram o cemitério municipal, rodoferroviária e estúdio, em Curitiba, e também a rodoviária de Jaguapitã (46 km ao norte de Londrina). ''Na história, há o deslocamento do casal que sai de um lugar grande e vai para um lugar pequeno. Eu queria o norte do Paraná pela terra Vermelha, que acho bonita. Fiz pesquisas em algumas rodoviárias e a que mais gostei foi a de Jaguapitã que tem uma estrutura diferente'', informa.
O curta, em fase de montagem, deverá ter entre 12 a 15 minutos de duração. Apenas três personagens: Rodrigo Ferrarini e Christiane de Macedo, os protagonistas, e a atriz Janja em participação especial. A produção executiva ficou a cargo de Elói Pires Ferreira enquanto a direção de produção foi atribuída a Alessandra Haro.
Se depender de Josiane Orvatich, a estréia acontecerá o mais breve possível. O filme está orçado em aproximadamente R$ 100 mil. Deste total, R$ 75 mil foram captados via Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Curitiba. O restante virá, conforme previsão, da possível aprovação do projeto inscrito na Lei Estadual de Incentivo à Cultura ou mesmo do patrocínio direto.
A seguir, os principais trechos da entrevista concedida por Josiane Orvatich que fala de Clarice Lispector, influências cinematográficas e, claro, de seu filme que ela sintetiza como uma ''metáfora da deserção''
Esse é seu primeiro curta ficcional. E de cara você ingressa no universo, digamos mítico, de Clarice Lispector. Não é um passo ousado não?
Totalmente. Acho ousado demais da conta, mas eu gosto da Clarice há muito tempo. O primeiro livro dela que li foi ''A Hora da Estrela'', quando tinha 15 anos. Essa minha relação com ela me faz ter uma afetividade que me ajudou a estrear. No ano passado, por exemplo, eu passei por um certo estresse ''clariceano''
Estresse Clariceano? Me explica isso!
Todo mundo só vinha me falar da Clarice. Apesar de gostar dela pra caramba, chegou uma hora que eu olhei e falei: ''Que saco essa mulher''. As pessoas sabiam que eu estava com o projeto e só falavam disso, traziam coisas dela, livros dela, tudo dela... Daí o estresse clariceano passou e eu voltei para minha relação inicial de paixão e eu rodei o filme.
É muito difícil definir o estilo de Clarice Lispector, mas vamos ao trivial que é dizer que ela imprimia clima piscológico aos escritos. Você acredita ter transposto esse clima para o filme? E de que maneira?
Pois é... Difícil responder isso. Eu transpus através de pequenos paralelos: a saída de uma cidade grande para uma pequena, os silêncios dos personagens, enquadramentos fechados, o cuidado com a expressividade dos atores. Acho que desde o figurino até a interpretação tinham que contribuir para passar a imagem que a gente fazia daquela mulher, daquela personagem...
No filme fica claro que a grande cidade é Curitiba e a pequena, Jaguapitã?
Quem conhece Curitiba, sabe que é Curitiba, obviamente. Mas a minha idéia era mostrar uma cidade grande qualquer e uma cidade pequena qualquer. De um lugar mais movimentado para outro mais pacato. Acho que isso é um dos elementos que contribuem para a metáfora de deserção.
Metáfora da deserção: assim pode ser sintetizado seu filme?
Exatamente. Coisas que a gente não quer levar adiante ou porque não consegue ou porque não concorda. Largar uma guerra é sinal de que você não concorda com aquela vida. No caso dos personagens, por mais que quisessem não têm mais como continuar.
De forma objetiva, aos olhos da diretora e da roteirista como você definiria os personagens?
É difícil ser objetivo. São personagens bem complexos. Não gosto de dizer: ''ele pensa isso''. Eu prefiro não saber direito o que ele pensa. Agora, a maneira como eu o vejo é um homem que acredita conhecer as mulheres e que todas são as mesmas. E ela uma mulher, meio viúva negra que ataca e depois recua.
Você já trabalhou como continuísta, assistente de diretora, atriz, em várias funções. Falando sério: seu negócio são os curtas-metragens ou esse formato é apenas uma preparação para um passo maior?
Ah, eu quero fazer longas. Mas eu tenho muito calma: quero terminar esse filme, talvez fazer outro curta... Olha só: quando escolhi esse roteiro, foi uma alegria profunda porque eu tenho muitos argumentos para um longa. Começar num longa seria inviável. Tenho várias idéias, como ''O Verão no Aquário'', romance da Lygia Fagundes Telles que gostaria de adaptar, além de argumentos meus.
Durante as filmagens, você sacava suas influências e referências como diretora?
Não dá para responder porque os diretores de que gosto não influenciam necessariamente o meu estilo, mesmo porque isso ainda está em construção. Eu gosto muito do (David) Cronemberg, por exemplo, mas não vejo essa influência no meu trabalho. Gosto muito de temas que envolvam confrontamento do seu eu com o outro. O ''Persona'', do Bergmanm, acho fenomenal.''Gêmeos, mórbida semelhança'' e ''Almas Gêmeas'', com a Kate Winslet, também são fenomenais. Eu acho que teria mais influência de uma temática do que de um cineasta.
Você disse que quer estrear o mais rápido possível. Duvido que você não tenha um festival em vista...
Talvez. Ficando pronto eu vou olhar qual o próximo e melhor festival. Talvez Curitiba, Gramado... Gramado é legal, né? (riso)
Eu acho que sim, não?
É, Gramado é legal...

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