Cinema nacional sacode a poeira
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 06 de novembro de 1997
Jackeline Seglin Londrina 
Milton DóriaMônica Schmiedt, produtora de Anahy de Las Misiones: filme foi realizado graças à nova política culturalRenascimento, retomada, ciclo, novo cinema nacional... Seja qual for a denominação, o fato é que o cinema brasileiro está novamente mostrando a cara na telona. A responsável é a Lei do Audiovisual (ou Lei 8685), que concede benefícios fiscais às empresas que compram cotas de participação acionária em filmes. Essa lei gerou um efeito catalisador na produção cinematográfica brasileira e, nos últimos três anos, injetou R$ 128 milhões no mercado. Em espécie, isso significa quase 100 produções nacionais. E tem mais por vir: 136 projetos aguardam a captação de recursos.
Entramos em outra fase do cinema nacional. Esta geração de cineastas emplaca com a retomada do cinema brasileiro e põe nas telas filmes como Carlota Joaquina, O Quatrilho (que foi indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 1995), Guerra de Canudos, O Que É Isso Companheiro? (filme escolhido para representar o Brasil na disputa pelas cinco vagas que concorrerão ao Oscar de melhor filme estrangeiro este ano), Anahy de Las Misiones, entre tantos outros.
Anahy.. levou nove semanas para ser
filmado e custou mais de R$ 2 milhões
Londrina não quer ficar de fora dessa movimentação. Por isso, tem gente que se mexe. Na semana passada, aconteceu o primeiro evento da Sessão Brasil, um projeto que objetiva trazer novas produções para a cidade e discutir cinema com profissionais da área e a comunidade. A produtora de Anahy de Las Misiones (filme de Sérgio Silva que está em cartaz em Londrina), Mônica Schmiedt, esteve na cidade para participar do evento como convidada do primeiro Sessão Brasil. Em entrevista à Folha, ela falou da nova política cultural do Governo, do cinema brasileiro na atualidade e da produção Anahy de Las Misiones.
São 15 anos dedicados ao cinema. Hoje, Mônica Schmiedt tem sua própria produtora, a M.Schmiedt, que está na terceira produção. Além de Anahy..., está produzindo dois documentários, Antártida, o Último Continente e A Invenção da Infância. Mônica já participou dos longas Verdes Anos Aqueles Dois e Me Beija (1984), fez a produção executiva de O Mentiroso (1988) e Manobra Radical (1990) e foi produtora delegada de O Quatrilho. Para o ano que vem, está preparando outro filme sobre aventuras e esportas radicais, Extremo Sul.
ResgateAnahy de Las Misiones foi filmado de maio a junho de 1996. O filme recebeu o prêmio do primeiro edital do Resgate do Cinema Brasileiro, através do qual Mônica iniciou a captação de recursos junto à iniciativa privada.
ReproduçãoFilmagens em
condições climáticas
adversas emprestaram
mais realismo às cenas
A produtora acredita que esta fase do cinema nacional só existe graças à nova política cultural do Governo Federal. Sem ela, todos esses novos filmes não estariam aí. Mas há muito o que caminhar. Com a competição das produções americanas, a distribuição de filmes ainda é um problema. Chegar ao circuito de exibição é complicado, porque as distribuidoras estão comprometidas com as grandes produções, argumenta.
No contexto atual, Mônica afirma que o produtor é figura de grande importância. Para ela, hoje é preciso mais do que idéias na cabeça e uma câmera na mão. Com a concorrência, temos que usar ferramentas como criatividade e técnica para lutar. Mas só isso também não basta, temos a obrigação de buscar mais.
Com essa virada do cinema nacional, muita gente está falando em renascimento da Sétima Arte no País. Para Mônica, o que acontece no Brasil são ciclos. Eu não acho que renascimento seja o melhor conceito. O cinema tem altos e baixos. Já tivemos boas fases, como na época da Embrafilme nos anos 80, e outras mais difíceis, diz, lembrando de quando o presidente Fernando Collor extinguiu por decreto a Embrafilme e outros órgãos federais ligados ao cinema.
O filme Trabalho de produção não é fácil. Anahy de Las Misiones demorou mais de três anos para ficar pronto. Foram um ano e meio de pré-produção, mais nove semanas de filmagem e um orçamento de R$ 2,3 milhões. Fomos muito rigorosos no processo, que foi lento, mas valeu a pena. Decidimos retardar a etapa de produção para que quando entrássemos na filmagem não tivéssemos problemas maiores com dinheiro.
Mônica conta que houve participação efetiva de todo o grupo de Anahy... nas gravações. Filmamos num dos invernos mais rigorosos do Rio Grande do Sul, construímos estradas, encaramos chuvas, rebocamos caminhões atolados na lama.... Ela lembra que em dias de chuva, os atores tinham que rolar na lama, com frio, e ainda esperar horas até chegar ao hotel para tomar um banho - frio. Esse trabalho foi muito legal e não houve reclamações. Todo mundo batalhou.
Parece que valeu. Anahy de Las Misiones foi lançado no Rio Grande do Sul no dia 19 de setembro. Até agora, 70 mil pessoas já assistiram ao filme de Sérgio Silva. O longa-metragem foi lançado em Cuiabá, Campo Grande e cidades de Santa Catarina, além de Londrina e Maringá. Em Curitiba, o lançamento será no próximo dia 13. No final do mês, finalmente a produção chega ao Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte e Brasília.
Para quem ainda não assistiu ao filme, Anahy... conta a história de uma mulher e seus filhos lutando pela sobrevivência durante a Revolução Farroupilha. Com a ajuda dos filhos, ela enfrenta a guerra, a morte e o medo com um único objetivo: manter sua família unida.
O legal dessa nova fase é poder produzir filmes no próprio Estado, diz Mônica Schmiedt. Ela observa que 90% dos recursos de Anahy... são do Rio Grande do Sul. Esse resgate da história, da memória, faz com que o filme seja mais forte. E o povo está gostando de se ver nas telas. Queríamos um produto culturalmente significativo e tivemos isso com a história de Anahy.


