São Paulo, 30 (AE) - O cinema brasileiro comemora o seu melhor desempenho histórico no mercado internacional. "Central do Brasil" foi visto por cerca de 1,3 milhão de espectadores na Europa - mais de meio milhão só na França. "Tieta", de Cacá Diegues, ficou 27 semanas em cartaz nos cinemas franceses e faturou, segundo o produtor Bruno Stropianna, US$ 1,2 milhão na Europa. A partir de agosto, outro filme de Cacá, "Orfeu" (já visto por mais de 1 milhão no Brasil), começa a ser distribuído pela Warner para exibição em salas de toda a América Latina, na Europa e nos Estados Unidos.
Historicamente, segundo dados da extinta Embrafilme, só um filme nacional teve desempenho semelhante: "Dona Flor e Seus Dois Maridos", que, em 1977, chegou a ter mais bilheteria em Paris do que filmes como "O Desejo É Corrupção", com Omar Sharif, um hit da época. O motivo parece evidente: pela quantidade de novas produções, o cinema brasileiro também despertou o interesse das distribuidoras internacionais. "Central do Brasil" foi distribuído pela Sony Classics, da Columbia; "Tieta", pela UGC francesa, e "Orfeu" pela Warner. Os números - principalmente os de "Central do Brasil" - são alentados. O filme foi visto por 100 mil suíços, 220 mil italianos, 250 mil alemães, 90 mil espanhóis e 580 mil franceses. No Brasil, 1,6 milhão viram a saga da personagem de Fernanda Montenegro. Ganhou 50 prêmios internacionais. Faturou US$ 6 milhões nos Estados Unidos, US$ 18,6 milhões na Europa e US$ 8 milhões no Brasil. Nada desprezível para uma produção de R$ 2,9 milhões.
Outros filmes que romperam a marca de mais de 300 mil espectadores fora do País são "Carlota Joaquina", de Carla Camurati (filme que iniciou o processo de retomada do cinema nacional), "O Quatrilho", de Fábio Barreto (candidato ao Oscar de 1996), e "O Que É Isso, Companheiro?", de Bruno Barreto (que também foi candidato ao Oscar). Esta última produção faturou US$ 700 mil no mercado americano. "O Quatrilho" foi visto com boa aceitação de público e crítica em Portugal, Espanha, Itália, França e Estados Unidos.
Antes mesmo de ser lançado, "Lavoura Arcaica" (que tem o título em inglês de To the Left of the Father), dirigido por Luís Fernando Carvalho, foi comprado pelo Canal Plus francês por cerca de US$ 600 mil. Carvalho seguiu a trilha aberta por "Tieta", "O Quatrilho" e "Orfeu", entre outros. E o produtor Luiz Carlos Barreto está em Nova York tratando da estratégia de distribuição internacional de "Bossa Nova", filme que ainda nem começou a ser filmado. O cineasta Fábio Barreto fez seu mais recente longa, "Bella Dona", com elenco parcialmente estrangeiro e com apoio da sua agência internacional, a Internacional Creative Management (ICM).
Entre as 71 produções recentes do cinema nacional, mais de 20% foram vistas por cerca de 300 mil pessoas. "Se você considerar que 82% dos filmes americanos fazem menos de 300 mil ingressos nas bilheterias, é um desempenho comparável ao deles"
diz Paulo Sérgio Almeida, diretor da produtora Filme B, do Rio, uma das mais ativas fontes estatísticas sobre o cinema nacional desde a extinção da Embrafilme. "Acho até que os filmes brasileiros já estão na média de renda do filme americano", afirma o cineasta Cacá Diegues. É preciso observar que, no mundo todo, apenas 25% da renda de um filme vem das bilheterias. A maior parcela é oriunda da comercialização de correlatos, como vídeos, produtos de licensing, DVD e outros. "Por enquanto, nós ainda estamos condenados a 25% da renda potencial de um filme, mas poderíamos captar até quatro vezes isso", adianta Diegues.
As comparações da ainda frágil indústria de cinema nacional com o poderoso cinema americano são legítimas, mas devem ser cautelosas. O cinema nacional, que só existe por conta de uma Lei de Incentivo do Estado (como, aliás, também ocorre na França e em boa parte dos países europeus), dispõe de apenas 1,2 mil salas de cinema para afirmar-se comercialmente viável. O cinema americano tem 35 mil salas - e, ainda, assim, se paga parcialmente só após a distribuição no mercado externo. Daí a importância que os cineastas brasileiros estão dando ao mercado internacional. "Fomos competir três vezes consecutivas pelo Oscar e essa é uma das provas de que o cinema brasileiro está começando a estabelecer-se", informa o ministro da Cultura, Francisco Weffort. Ele crê, no entanto, que ainda é cedo para cobrar um desempenho econômico excepcional do cinema nacional. "Não acho que isso possa ocorrer com essa ligeireza", afirma o ministro.

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