Cinema Moderno (Lélio Sotto Maior Jr.)
Vertigo e Janela Indiscreta
É a partir do conflito de não-correspondência de resultados entre a vivência física de uma acontecimento e a redução intelectual que este acontecimento pode adquirir, que se organiza a obra-prima de Alfred Hitchcock, Vertigo/Um Corpo que Cai.
A Vertigem, de James Stewart, é a tomada de consciência do abismo existente entre o mundo sensível e o mundo intelígivel. É sofrendo angústia de um amor traçado apenas em seus indícios, de um amor projetado apenas em seus gestos iniciais, sem seus primeiros delineamentos, um amor morto sem mãos, sem rosto, sem voz, sem corpo mas grafando nas pedras do museu, nos silêncios do cemitério, nos corredores do mar e do crepúsculo seus élans musicais, que Jimmy repentinamente toma consciências do caráter imaginário de sua experiência.
Ora que experiência vivida é experiência somada, adicionada e multiplicada à totalidade nervosa e consciente de um ser e por mais que racionalmente se possa provar a absoluta irrealidade dos fatos ocorridos, tanto Jimmy quanto nós, espectadores, estamos condenados a não mais poder substituir nem anular o impacto e os efeitos (o espanto e o fascínio sinfônico) da aventura vivencializada.
Para nós que a seguimos susto a susto, emoção a emoção, pesadelo a pesadelo de seu interior simplesmente não faz sentido se falar em imaginação porque ainda trazemos fresca e latejante na memória de nosso consciente a dura marca da realidade dos acontecimentos.
Janela Indiscreta (Rear Window), de Hitchcock (filme construído na microcronometragem do latejar do instante) é o combate entre o automatismo da superfície do mundo (todas as cenas do filme se abrem sublinhando o latejar sensível do vivo, desse apetite imediato e nutritivo de viver, essa imediatez biológica mesmo da vida: uma bailarina rodopiando, gotas de suor na testa de Jimmy Stewart, o termômetro marcando alta temperatura, as massagens de Thelma Ritter, as refeições, etc. um universo (seres e objetos em incessantes rotações) e obsessão intelectiva do homem.
Aqui a obra estrutura-se através do conflito dos que assistem a um acontecimento (no caso, Jimmy) e os que vivem concretamente este mesmo acontecimento (os habitantes do outro lado do prédio). Neste filme, talvez o mais fantástico de seu ator, Grace Kelly é uma corrente de fluídos e élans (ela entra em cena como uma força elétrica a acender uma por uma todas as lâmpadas do quarto), daí a importância de sua presença vaporosa/luminosa, tendo o metteur-en-scéne administrado um truque de cartoon (o rosto de Grace em close-up fica repentinamente tremulhante e mágico) à primeira aparição do seu rosto, para evidenciar o caráter feérico da personagem.
Já em oposição a ela, Jimmy é uma projeção intelectual de raciocínios que tenta submeter o mundo às armadlinhas de sua inteligência racional (daí a importância dada pelo olho microdetalhoso da câmera à cabeça de Jimmy), se estabelecendo uma dialética emoção x reflexão.





