Os 100 Anos de Hitchcock
Alfred Hitchcock nasceu em 13 de agosto de 1899.
1) Todo filme de Hitchcock realiza a passagem do mundo como referência a uma ‘‘Idéia do Mundo’’ ao mundo dado intransitivo e despido de toda a possibilidade referencial ou significante, a passagem das águas calmas da idéia - da coisa (aquela quietude inquietante que perfaz a primeira parte de ‘‘Os Pássaros’’) ao furor fenomênico e incontrolável da hélice (ou asa) da coisa-viva. ‘‘Vertigo’’: a passagem do linear ao espirálico, do apolíneo ao dionisíaco, da medida ao informule, dos traçados planos do mapa à vulcanicidade imprevisível do território. A passagem do plano fixo ao ‘‘travelling-circular’’.
2) Assim, a obra hitchcochiana é organizada através da dialética do conceitual ao sensorial, do inteligível ao ininteligível, dialética que veio se realizar no mais alto grau de sugestão em ‘‘Os Pássaros’’, onde o conflito desfecha-se a partir da relatividade de todo o processo de conhecimento a impenetrabilidade cerrada do real.
3) ‘‘Janela Indiscreta’’ (Rear Windown) é a passagem do não-senso ou para-senso (o mundo em estado bruto) para o senso (que progressivamente a teleobjetiva vai impondo ao mundo caótico que ela capta), ‘‘Intriga Internacional’’ (North by Northwest) e ‘‘Psicose’’ (Psyco) são a passagem do senso (o mundo cotidiano) para o não-senso (o mundo fantástico) e deste novamente ao senso (retorno ao ‘‘cotidiano’’), enquanto que ‘‘Os Pássaros’’ (The Birds) e ‘‘Um Corpo que Cai’’ (Vertigo) realizam a passagem do senso (o mundo equilibrado em conceitos) para o ‘‘senso suspendido’’ (os conceitos reduzidos à zero, a essência desmentida pela existência, o mundo reduzido a seu estado ‘‘primal’’.
4) Depois da continuidade levada até o plano da exaustão (‘‘Festim Diabólico’’), da procura por entre brumas pelos cemitérios e museus enormes e vazios (‘‘Um Corpo que Cai’’), da paisagem cósmica na horizontalidade do deserto (‘‘Intriga Internacional’’), do estudo metálico ‘‘a interior do automatismo’’ (‘‘Psicose’’), Hitchcock veio realizar o primeiro poema-eletrônico da história do cinema: ‘‘Os Pássaros’’.

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