Cinema Moderno (Lélio Sotto Maior Jr.)
Uma Mulher Para Dois
Toda palavra parecerá rude, grosseira, mesmo a mais límpida, a mais despojada, a mais pura, para se definir o tipo de encantamento (cinematográfico, existencial) proporcionado por Jules et Jim. Tivesse o observador apaixonado a mesma pureza de inspiração para redigir um artigo sobre o filme que o artista para gerá-lo. O único sentimento que resta então ao crítico responsável (pelo menos o único realmente digno de crédito diante das circunstâncias) é o da frustração de ter ousado depor sobre um filme tão unicamente despretencioso.
Porque evidentemente Uma Mulher Para Dois (Jules et Jim) de François Truffaut, dispensa a inteligência. É o suor do odor da terra e dos sêres. E neste suor epidérmico e goetheano que emana do centro da terra em rotação e em fecundação, Truffaut redescobre a pureza inicial do mundo e do cinema. Donde a intuição sem precedentes na história do cinema de um cineasta poder apreender num flash ideogrâmico-blocal todo o mood estrutural de uma época em dois detalhes, num relógio, num sorriso, num gesto, numa vestimenta, num ourinol. Pouco à pouco vai se revelando aos nossos olhos-ouvidos o que foi o início do século e do cinema: um clarão fulgurante, um estampido, um carrosel de euforia, invenção e invenções, locomotiva, máquina à vapor, cinematographo: um universo-bebê em inauguração, onde todos os jogos eram permissíveis, todos os riscos passíveis de experimentação.
Truffaut, numa série de collages, fotos, fotografias, clins doeil realizou a síntese de todo o cinema (do espírito futurista de Mack Senneth ao grafismo e detalhismo de Hitchcock), o que comprova o fôlego de visão de processo histórico com relação ao cinema que ele, e a facção mais lúcida da NV, possuem. Nunca até então o cinema havia sido tão avassadoramente a Arte de Olhar e dos Olhares. Inútil se falar em amoralismo a respeito do filme. Os personagens assim são como respiram, como os grilos do campo, como os insetos que os rodeiam e que eles escrupulosamente tentam estudar e amar. E a maior audácia de Truffaut foi a de filmá-los, isto é, com eles conviver como quem com eles dança cirandinha.





