Cinema Moderno (Lélio Sotto Maior Jr.)
Alain Resnais O Cinema Puro
Assim como Orson Welles revolucionou a linguagem do moderno cinema americano com o seu insuperável O Cidadão Kane, o francês Alain Resnais revolucionou a linguagem do moderno cinema francês com os seus inebriantes Hiroshima, Mon Amour e O Ano Passado em Mariembad.
Mais do que meros interessados em técnica no sentido estrito mecânico da palavra, estes dois cineastas entenderam todas as implicações estéticas e sintáticas da palavra invenção - inauguração de uma nova linguagem, de um novo processo total para a arte cinematográfica.
Em Hiroshima e Mariembad, Resnais levou às últimas possibilidades de um projeto desencadeado por Welles no seu básico Kane - fazer do cinema uma arte autônoma, com um modus operandi próprio e auto-reabastecente.
Quem entendeu melhor a revolução de Resnais foi o crítico brasileiro José Lino Grunewald, que nas páginas do Jornal de Letras explicava que, apesar de todos os diálogos e monólogos, Hiroshima e principalmente Mariembad eram os menos literários filmes já feitos pelo cinema, porque centrados numa dinâmica de processos essencialmente motovisual-e-sonora (a expressão é do próprio), enquanto que os filmes mudos, mesmo os mais clássicos, apesar de não terem o uso sonoro das palavras, eram muito mais literários do que os de Resnais, pois recorriam a um processo de estruturação lógico (isto é, baseado nos logos verbais) e portanto, vinculados ao código verbal e, por extensão, à literatura.
Para Grunewald, os filmes de Resnais assim como O Acossado de Godard, inauguraram, praticamente depois dos 60 anos de existência oficial, a autêntica linguagem-cinematográfica, concebida como um processo autônomo e auto-suficiente, com a sua dinâmica de estruturação independente de outras artes (ainda que aparentemente a elas veiculado) porque irradiam o nascimento de uma nova arte, a foz de uma nova linguagem.
Resnais, através da utilização absolutamente moderna e inédita da montagem eisenteiniana, do travellin (que havia sido aprimorado pelo austríaco Marx Ophuls), Godard, através da imediaticidade do take (plano) e também do travelling, lançaram as bases do estudo do comportamento em ação no cinema moderno quando os seres são estudados não através do a priori de reduções subjetivas mas através do seu incessante desdobramento dinâmico num eterno adevir existencial ôntico, técnica formulada pela escola fenomenológica alemã e posteriormente (re) formulada pelos existencialistas franceses (de heidegger à Sartre e Marleau- Ponty) que propõem uma visão não estática e não definitiva (não essencialista) do mundo-e-das coisas.
Neste sentido, Hiroshima Meu Amor, O Ano Passado em Mariembad e de certa forma O Acossado e A Aventura do italiano Antonioni, são os primeiros filmes realmente modernos do cinema, porque vinculados direta ou indiretamente à filosofia moderna lançada pelos novos pensadores e/ou formuladores de pensamento (Vertigo e Os Pássaros, ambos de Hitchcock, apesar de serem mais populares a grosso-modo ou a olho-nu, também contém intuitivamente esta mesma modernidade).
Resnais fez do cinema uma arte que pode ser pela primeira vez pensada como se pensa um texto de filosofia ou de poesia concreta, tão aberta ao novo e ao inédito quanto à ciência contemporânea.





