Hitchcock (100 anos)
- Parte 2 -
Apesar de Hitchcock, ou ‘‘Hitch’’ como é chamado por muitos, ser a figura mais conhecida e festejada do cinema americano moderno, só rivalizando em termos absolutos com a de Chaplin, permaneceu na apreciação de sua obra tanto uma resistência quanto uma confusão excelente por parte dos críticos.
Se até os anos 50 o cineasta era considerado apenas um bom tecnicista, capaz de compôr com habilidade as películas mais ‘‘difíceis’’ de realizar do ponto de vista ‘‘mecânico’’ (‘‘Festim Diabólico’’, ‘‘A Janela Indiscreta’’, ‘‘O Homem que Sabia Demais’’), grande parte da crítica francesa começou apontá-lo como um autor. Estes críticos, centrados principalmente no ‘‘Cahiers du Cinema’’, realizaram todo um trabalho de reabilitação e de recuperação artística do cineasta, apontando méritos artísticos onde os críticos mais apressados só viam profissionalismo brilhante.
Filmes como ’’Ladrão de Casaca’’, ‘‘Um Corpo que Cai’’, ‘‘Intriga Internacional’’ e finalmente ‘‘Psicose’’ passaram a serem olhados com maior atenção pelos ‘‘experts’’ em 7ª arte.
Claude Chabrol e Erich Rohmer foram os primeiros a publicar um trabalho relativamente profundo a respeito do ‘‘mestre do suspense’’, seguidos mais tarde por François Truffaut.
Finalmente a crítica inglesa também aderiu ao movimento nobre hitchcockianismo, e Robin Wood e Donald Spoto fizeram ensaios de monta sobre o cineasta.
Toda uma geração de críticos rebeldes começou a lutar de mangas arregaçadas pelo reconhecimento mundial do cineasta angloamericano. A situação chegou a um impasse no início dos anos 60, quando o cineasta realizou sua obra mais famosa, mais polêmica e mais inventiva, ‘‘Os Pássaros’’, ensaio de surrealismo total realizado com recursos eletrônicos de primeira qualidade. Os críticos não-hitchcochianos nada mais viram que um exercício aprimorado e ou sofisticado de truques ou trucagens de vanguarda enquanto que os mais ardorosos Hitchcockianos (que representam o anti-conformismo e a renovação) viram neste filme a prova-dos-nove de que o cineasta é um grande artista ou até mesmo um gênio (desde ‘‘Um Corpo Que Cai’’, nenhum outro ‘‘Thriller’’ hitchcockiano havia levantado com tanta veemência esta hipótese).
As interpretações a respeito de ‘‘Os Pássaros’’ foram as mais variadas e conflitantes, indo desde a interpretação sociológica (onde o cineasta teria feito uma crítica em profundidade da mística americana do ‘‘tempo livre’’ ou do culto do ‘‘week-end’’, tema depois desenvolvido por Tati no seu mais explícito ‘‘Playtime’’ e por Godarg no seu avassalador ‘‘Week-End’’) até psicanalista (onde muitos viram uma exposição do tema freudiano de ‘‘transferência’’ ou ‘‘Projeção’’), passando pela teoria, levantada por alguns mais lúcidos como o crítico francês Jean André Fieschi, de que Hitchcock teria se incorporado finalmente à vanguarda européia pós-surrealista e experimentalista, que cultiva a noção de ‘‘obra aberta’’ ou de ‘‘filme enigma’’, pois pela primeira vez o cineasta não ‘‘explicou’’ o mistério por ele apresentado (curiosamente ou não, no Castelo de Mariemabd de Resnais há uma foto gigante do mestre).
Outros viram em ‘‘Os Pássaros’’, a confirmação de que Hitchcock é, além do ‘‘mestre do suspense’’ (desta feita o ‘‘suspense’’ era ‘‘metafísico’’ segundo os melhores) um mestre do ‘‘efeito-especial’’, pois neste filme ele revela um uso tão sugestivo quanto expressionista da trucagem e do som eletrônico, se aproximando da idéia poundiana de ‘‘invenção’’, a qual só um Resnais ou um Godard podem reivindicar nos seus melhores momentos, ou seja, um artista dedicado a renovar totalmente a sua linguagem.
As obras posteriores do cineasta, notoriamente inferiores (com excessão do sombrio ‘‘Mamie’’) ao delirante ‘‘Os Pássaros’’ , deixaram mais em dúvida os críticos e o público, que até hoje ainda não chegaram totalmente a um acordo, a um ponto de vista definitivo a respeito da carreira cinematográfica de Alfred Joseph Hitchcock.
Uma coisa é certa: ninguém mais do que Hitchcock faz ferver as cabeças-quentes dos críticos franceses com as suas fórmulas originais e divertiu mais o grande público com as suas técnicas de excitação do que Hitchcock, para muitos o melhor cineasta americano de todos os tempos e para outros (mais conservadores) apenas um esperto ‘‘movie-maker’’.

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