Cinema Moderno (Lélio Sotto Maior Jr.)
Hitchcock: 100 Anos
A carreira hollywoodiana de Hitchcock começa em 1940, com Rebeca. Esta fase é muito criativa, porque Hitch pode dispor de maiores recursos técnicos, e isto é básico para um cineasta que é um dos maiores inventores de formas do cinema e tem alto senso de perfeição formal. Mas esta fase é importante sobretudo porque Hitchcock, um inglês filho de uma sociedade tradicionalista, é repentinamente jogado no centro das contradições do Novo Mundo, no centro do capitalismo, na sociedade industrial. Deste aspecto, Hitchcock fez sua temática preferida: um homem comum, jogado numa situação extraordinária. E do impacto deste conflito (o velho europeu jogado na sociedade tecnológica) surgiram as maiores condenações dos Tempos Modernos. Esta fase é um desfilar de anomalias, psico-patologias, distúrbios, alienações, neuroses do Mundo Moderno: 1) O assassinato como forma diversão da elite (Festim Diabólico); 2) Crimes Matematicamente Planejados (Pacto Sinistro) e tecnicamente perfeitos (Disque M Para Matar); 3) O voyeurismo (vício de bisbilhotar) do homem urbano (Janela Indiscreta); 4) Um casal de ingleses comuns, perdidos num emaranhado de complôs (O Homem que Sabia Demais); 5) O totalitarismo policial das grandes cidades (O Homem Errado); 6) Um detetive aposentado cai num labirinto (Vertigo); 7) O encontro de uma ladra com um matricida (Psicose); 8) A neurose do homem contemporâneo face a uma hecatombe nuclear (Os Pássaros); 9) A causa da cleptomania de uma secretária americana (Marnie). Depois de assistir a estas críticas da sociedade americana, nem o mais americanófilo dos espectadores será capaz de considerar o American Way of Life como um paraíso terrestre.





