Cinema Moderno (Lélio Sotto Maior Jr.)
A Noite Premingeriana
No início dos anos 60, empolgado com a propaganda que se fazia do filme, fui ao cinema assistir Anatomia de Um Crime, de Otto Preminger. Os críticos franceses, com exceção de Godard (que detestou), diziam maravilhas do filme de Otto. Devo reconhecer que a primeira metade do filme confirmava o veredito nada favorável de Godard, Mas, de repente, na noite da cidade de interior, um carro avançava furiosamente ao som da música de Duke Ellington. E senti um estalo, um satori, uma iluminação. Era aquilo então que o Cahiers du Cinema chamava de misenscene premingeriana, uma certa sensação de vertigem visual, de deslumbramento perceptivo, de clarão búdico. Mas o que é que havia de tão especial no carro de Donald OConnor e sua cara de bobo? Aparentemente nada. Mas sutilmente tudo. Era como se Preminger tivesse feito a fenomenologia da percepção do automóvel correndo noite a dentro. Devo confessar que, daquele dia em diante, passei a olhar os filmes de Preminger com mais atenção e cuidado. Logo em seguida, vi outra reprise premingeriana, Exodus. E em Exodus notei que a maneira de enquadrar de Preminger era realmente muito delicada e graciosa, conforme diziam os críticos do Cahiers. Depois com Bonjour Tristesse, outra reprise premingeriana, tudo ficou mais fácil: Preminger era realmente o gênio da misenscene premingeriana. Mas tudo começou realmente (pelo menos para mim) com Anatomia de um Crime (que havia ganho uma só estrela no Conselho do Dez do Cahiers por Godard). A noite premingeriana de Anatomia de um Crime foi o meu grande saque cinematográfico.
Nota: O próprio Godard, que não era lá muito premingeriano, gostou de Bonjour Tristesse e de Exodus.





