Cinema Moderno (Lélio Sotto Maior Jr.)
Cinema Moderno
Lélio Sotto Maior Jr.
São Jerônimo
Júlio Bressane é autor de dois dos melhores filmes do cinema brasileiro moderno: Tabu e O Gigante da América. O primeiro é uma hommage ao clássico de Murnau-Flaherty ao mesmo tempo que uma homenagem à maravilhosa marginália da nossa música popular. Destaque em Tabu para a presença do solerte Caetano Veloso e de José Lino Grunewald, nosso melhor crítico de cinema dos anos 60.
Já com O Gigante da América o diretor utiliza recursos aparentemente extra-cinematográficos como o grafismo e a utilização das trilhas sonoras de Bernard Hermann (músico de Hitchcock), godardianices, além de oferecer a melhor atuação de Jece Valadão desde o excelente Os Cafagestes de Ruy Guerra.
Mas eis que o vanguardista virou mítico, o laico se metamorfoseou em esotérico. Resultado: o que havia de gratuito e meramente experimental na sua fase anterior, se consolidou em autêntico humanismo, lembrando a trajetória de Nicholas Ray, que fazia filmes simples como Juventude Transviada e acabou realizando o poético O Rei dos Reis.
São Jerônimo é uma experiência espiritual de primeiro grau e a prova da maturidade intelectual de Bressane, um cineasta que partiu do cinema ateu e chegou ao cristianismo de um Rossellini (cf. Europa 51).
Levantando a problemática da complexidade da tradução de textos clássicos, Bressane fez ao mesmo tempo um filme concretista, pois os Irmãos Campos são altamente preocupados com a temática da tradução inventiva, e um filme mankiewicziano, pois Joseph L. Mankiewicz era o cineasta que melhor utilizava a palavra em seus filmes, tendo aproveitado textos de Catulo para realizar o seu magnífico Cleópatra, a melhor super-produção de cinema moderno.





