Desde os bons tempos de Godard (‘‘A Chinesa’’ / ‘‘2 ou 3 coisas que sei dela’’) ou então de Antonioni (‘‘O Deserto Vermelho’’ / ‘‘Blow Up’’), não se via um filme tão experimental como este ‘‘Afogando em Números’’, de Peter Greenaway.
O filme é uma espécie de ‘‘The Trouble With Harry’’ (O Terceiro Tiro), de Hitchcock, ‘‘Alice no País das Maravilhas’’, de Lewis Carrol, ‘‘As Criaturas’’, de Agnés Varda. Já no início, uma menina pulando corda diz o nome latino de 100 estrelas! A seguir, o campo inglês e seus jogos reina absoluto, num quebra-cabeças tão excêntrico e complexo quanto uma novela de James Joyce.
São três afogamentos o leit-motif do filme, tudo realizado numa atmosfera do mais completo surrealismo. Seria Greenaway leitor da querida Patricia Highsmith? Pois o filme lembra ‘‘Pacto Sinistro’’ (Stranger on a train), de Hitch e mais o ‘‘Oditie’’ (como o chamaria Andrew Sarris), ‘‘O Amigo Americano’’, de Win Wenders.
Mas o grande trunfo do filme é também a fotografia de Sacha Vierny, apenas o fotógrafo de ‘‘Ano Passado em Mariembad’’ (L’Année Derniere à Mariembad), de Alain Resnais. Utilizando todas as possibilidades do travelling (movimento de câmera), Vierny mostrou que é um excelente complemento à sensibilidade neurótica de Greenaway.
Por outro lado, não é nem preciso dizer que ‘‘Afogando em Números’’ é tão insólito quanto uma Agatha Christie filmada por Andy Wharol ou Kenneth (Scorpio Rising) Anger.

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