Vincente Minnelli é o Stephane Mallarmé do cinema: preciosismo, magia, musicalidade, arco-íris de invenções, luxúrias de formas, estesia, lucidez encantatória. Minnelli, um dos inventores do musical moderno (‘‘O Pirata’’, ‘‘Sinfonia de Paris’’, ‘‘A Roda da Fortuna’’, ‘‘A Lenda dos Beijos Perdidos’’, ‘‘Gigi Um Estranho no Paraíso’’, ‘‘Esta Loira Vale Um Milhão’’), foi um dos primeiros cineastas, juntamente com Otto Preminger (‘‘Bonjour, Tristesse’’) a dar uma valorização estrutural ao colorido. A cor não apenas como coisa ornamental ou decorativa. Pintor, fotógrafo, cenógrafo, decorador e costureiro, Minelli tem (forçosamente) um senso estrutural das cores e deu ao colorido a dimensão de novo elemento estrutural da arte cinematográfica. O Tecnicolor (e mais precisamente no caso de Minelli, o Metrocolor, a mais bela técnica de colorido do cinema. Ao contrário do colorido roseado e acurado da Century Fox, ou o colorido excessivamente sóbrio e plúmbeo da Warner Brothers, o Metrocolor inaugurou um colorido fulgurante e Goyano) com uma linguagem, como um processo, como uma poética: com seus ‘‘Appeals’’, com sua dinâmica própria.
Outra preocupação básica de Minelli: a criança. Entre inaugural e virgem, a criança ainda não foi triturada pela conjuntura, ainda não foi submetida à lavagem-cerebral do sistema. Por isso mesmo, a criança guarda uma inocência e uma pureza, uma liberdade ontológica ainda não contaminada pelas estruturas. E mais, a criança guarda um espanto maravilhado diante do mundo, espanto que a aproxima do artista, este espantado profissional. Este espanto, esta inocência, esta liberade ontológica são uma abertura para uma aproximação autêntica da vida, desembaraçada dos entraves das mistificações da civilização. A confrontação ‘‘crítica’’ da criança com o contexto da civilização, e os problemas (ontológicos, psicológicos, sociológicos) que daí resultam, é temática básica de Minnelli. Para citar alguns exemplos: Leslie Caron em ‘‘Gigi’’, George Peppard em ‘‘Herança da Carne’’, John Kerr em ‘‘Chá e Simpatia’’, Ronnie Howard em ‘‘Papai Precisa Casar’’, Sandra Dee em ‘‘Brotinho Indócil’’, o menino de ‘‘Adeus às Ilusões’’.
E há ainda as crianças-crescidas minnellianas: Jude Holliday em ‘‘Esta Loira Vale 1 Milhão’’, Glen Ford em ‘‘Os 4 Cavaleiros do Apocalipse’’, Shirley McLayne em ‘‘Deus Sabe Quanto Amei’’, Kirk Douglas em ‘‘Sede de Viver’’ e ‘‘A Cidade dos Desiludidos’’, Debbie Reynolds em ‘‘Um Amor do Outro Mundo’’, Liz Taylor em ‘‘Adeus às Ilusões’’. Todos eles, de uma ou outra forma, artistas, logo, crianças.
E mais: não só a temática de Minnelli é a criança, como a sua própria arte é ‘‘infantil’’ (como é infantil a arte de Picasso, Miró, Klee, Oswald, Godard) e reflete esta infância d’arte onde o próprio ato de inventar é inocência demiúrgica. Minnelli possui um refinamento ‘‘ingênuo’’ de formas, uma displiscência rara no inventar-formas, que na mão de outro cineasta poderia passar por esteticismo. Mas suas formas são forças e ‘‘o sonho devêm mundo’’ (Novalis).

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