Se Charles Chaplin não existisse, o cinema americano e mundial não teria o seu Willian Shakespeare, e as multidões não teriam degustado o seu popular e laico Hamlet, anjo barroco das hermenêuticas clássicas e modernas.
Muito mais do que outro respeitável sir do cinema inglês, Lawrence Olivier, Chaplin levou, através de suas efabulações requintadamente alusivas e translúcidas, o universo potente do teatrólogo à tela.
Sem nunca ter recorrido à gag shakesperiana propriamente dita e ao seu acervo cultural monstruosamente prestigioso, Charlie fez, entretanto, mais do que ninguém, um cinema shakesperiano de comédia e tragédia, drama e monólogo, onde a força da palavra e do gesto teatral são peças básicas do teatralismo da mise-en-scene.
Cineasta da pantomina e da farsa, do mistério e da graça do corpo humano, Chaplin se aproxima de Shakespeare pelo seu amor quase bizantino e renascentista pela ‘‘coreografia’’ humana, onde o corpo, angélico, adquire asas e voa, descorporalizando-se em pura mise-en-scene e onde a voz oscila entre ser discurso (significação) e canto (poesia), isto é, entre mensagem e arte em si.
Mais do que um mero criador de comédias, é da ‘‘Divina Comédia’’ que nos fala o príncipe do cinema, também conhecido por Charles Spencer Chaplin.
Em ‘‘Chaplin’’, há a nostalgia da arte total, onde a expressão, através de um passe de mágica, se transforma em ícone ou símbolo, estátua por sua vez.
Cineasta de um mundo rígido e morto como as pirâmides do Egito, mas onde um ligeiro sorriso é tão abrasador quanto o sol do Saara. Finalmente Chaplin é apenas Chaplin e nada mais do que Chaplin, consolidando a paráfrase de Gertrude Stein - a rose is a rose is a rose.
Talvez mais do que o espelho do mundo, Chaplin é antes de tudo espelho de si próprio, por isso mesmo Narciso radical e primeiro Cidadão Kane e primeiro personagem mariembadiano (cf. Monsieur Verdoux) do cinema moderno.
E se fica muitas vezes difícil exigir lógica ou coerência de farsas sibilantes ou paródias insinuantes como ‘‘Luzes da Ribalta’’ e ‘‘Um Rei em Nova York’’, é porque Chaplin escolhe, antes de tudo, ser fiel a si próprio e depois ao cinema, ao contrário de seus companheiros Welles e Fellini, menos individuais e mais ‘‘fiéis’’.
Cineasta megalomaníaco por excelência, Chaplin está sempre chapliniando, mesmo quando parece que está chapinizando (‘‘A Condessa de Hong-Kong’’).
Só interessa o seu absoluto ‘‘eu’’ a este ‘‘modesto’’ criador de piadas e sorrisos, e mesmo quando ele não está presente em seus filmes, a sequência fica dialeticamente chapliniana pela sua ‘‘ausência’’: já viram coisa mais Charles Chaplin?

mockup