Cinema Moderno - Lélio Sotto Maior Jr.
O cinema de Kubrick, diretor novaiorquino morto na semana passada, é o cinema dos arquétipos e máscaras, caricaturas e estereótipos, como nunca antes o cinema havia oferecido a um grau tão desenvolvido e aprimorado.
Pode-se falar em Decalcomania a respeito do cineasta ou então de ideograma chinês, pois o cinema de Kubrick é suplementarmente falso e oblíquo, teatral e sígnico, perfazendo, talvez, pela primeira vez no cinema, o famoso distanciamento brechtiano, um técnica de iludir e recriar a realidade pelo avesso, a partir de suas contradições e disjunções básicas.
O cinema de Kubrick, que começou realista (Lolita e Spartacus) só poderia acabar expressionista (2001, A Laranja, Barry Lindom) ou então surrealista (O Iluminado).
Através de um progressivo amadurecimento de formas e técnicas, Kubrick acabou transformando o seu cinema em pura trucagem como nem mesmo Hitchcock jamais havia tentado: a fantasia pura, a loucura geométrica, a alucinação gráfica, a paranóia design, o pesadelo sintagmático (seria Kubrick o primeiro cineasta concretista da história do cinema?).
Da primeira e/ou segunda linha do cinema espetáculo hollywoodiano (Lolita, Spartacus, Dr. Fantástico), Kubrick chegou à nouvelle vague francesa (A Laranja Mecânica, Barry Lindom e O Iluminado) numa trajetória que comporta uma estudada e deliberada desamericanização do seu cinema (Cf. 2001) ou então uma lenta e irreversível europeização (Cf. Clockwork).
De americano, Kubrick teve o senso do espetáculo e a sua visão tecnológica. Do cinema europeu, a invenção e a efervescência formal.





