O cinema de Kubrick é o cinema de arquétipos e máscaras, caricaturas e estereótipos, como nunca antes o cinema havia oferecido a um grau tão desenvolvido e aprimorado.
Pode-se falar em ‘‘Decalcomania’’ a respeito do cineasta ou então de ‘‘ideograma’’ chinês, pois o cinema de Kubrick é suplementarmente ‘‘falso’’ e ‘‘oblíquo’’, ‘‘teatral’’ e ‘‘sígnico’’, perfazendo pela primeira vez no cinema, o famoso ‘‘distanciamento brechtiano’’, uma técnica de iludir e recriar a realidade pelo avesso a partir de suas contradições e disjunções básicas.
O cinema de Kubrick, que começou realista (‘‘Lolita’’ e ‘‘Spartacus’’) só poderia acabar expressionista (‘‘2001’, ‘‘A Laranja Mecânica’’, ‘‘Barry Lindom’’), ou então surrealista (‘‘O Iluminado’’).
Através de um progressivo amadurecimento de formas e técnicas, Kubrick acabou transformando o seu cinema em pura ‘‘trucagem’’ como nem mesmo Hitchcock jamais havia tentado: a fantasia ‘‘pura’’, a loucura ‘‘geométrica’’, a alucinação ‘‘gráfica’’, a paranóia ‘‘design’’, o pesadelo ‘‘sintagmático’’ (seria Kubrick o primeiro cineasta concretista da história do cinema?).
Da primeira e/ou segunda linha do cinema espetáculo hollywoodiano (‘‘Lolita’’, ‘‘Spartacus’’, ‘‘Dr. Fantástico’’), Kubrick chegou à Nouvelle-Vague francesa (‘‘A Laranja Mecânica’’, ‘‘Barry Lindom’’ e ‘‘O Iluminado’’) numa trajetória que comporta uma estudada e deliberada desamericanização do seu cinema (Cf. ‘‘2001’’) ou então uma lenta e irreversível europeização (Cf. ‘‘Clockwork’’).
De americano, Kubrick tem o ‘‘senso do espetáculo’’ e sua ‘‘visão tecnológica’’, do cinema europeu, a ‘‘invenção’’ e a efervescência ‘‘formal’’. Se cada filme do cineasta parece um desafio aos próprios limites do cinema, e uma insatisfação visceral com a sua liguagem, ainda veremos o dia em que o cineasta será capaz de inventar o sonho filmado ou o pesadelo fotografado.
Isso não é nada, afinal de contas, para quem começou como fotógrafo de ‘‘Look’’...

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