Cinema moderno - 21
PUBLICAÇÃO
sábado, 14 de novembro de 1998
Lélio Sotto Maior Junior 
O cinema de Kubrick é o cinema de arquétipos e máscaras, caricaturas e estereótipos, como nunca antes o cinema havia oferecido a um grau tão desenvolvido e aprimorado.
Pode-se falar em Decalcomania a respeito do cineasta ou então de ideograma chinês, pois o cinema de Kubrick é suplementarmente falso e oblíquo, teatral e sígnico, perfazendo pela primeira vez no cinema, o famoso distanciamento brechtiano, uma técnica de iludir e recriar a realidade pelo avesso a partir de suas contradições e disjunções básicas.
O cinema de Kubrick, que começou realista (Lolita e Spartacus) só poderia acabar expressionista (2001, A Laranja Mecânica, Barry Lindom), ou então surrealista (O Iluminado).
Através de um progressivo amadurecimento de formas e técnicas, Kubrick acabou transformando o seu cinema em pura trucagem como nem mesmo Hitchcock jamais havia tentado: a fantasia pura, a loucura geométrica, a alucinação gráfica, a paranóia design, o pesadelo sintagmático (seria Kubrick o primeiro cineasta concretista da história do cinema?).
Da primeira e/ou segunda linha do cinema espetáculo hollywoodiano (Lolita, Spartacus, Dr. Fantástico), Kubrick chegou à Nouvelle-Vague francesa (A Laranja Mecânica, Barry Lindom e O Iluminado) numa trajetória que comporta uma estudada e deliberada desamericanização do seu cinema (Cf. 2001) ou então uma lenta e irreversível europeização (Cf. Clockwork).
De americano, Kubrick tem o senso do espetáculo e sua visão tecnológica, do cinema europeu, a invenção e a efervescência formal. Se cada filme do cineasta parece um desafio aos próprios limites do cinema, e uma insatisfação visceral com a sua liguagem, ainda veremos o dia em que o cineasta será capaz de inventar o sonho filmado ou o pesadelo fotografado.
Isso não é nada, afinal de contas, para quem começou como fotógrafo de Look...


