Cinema moderno - 20
Cinema moderno - 20
Federico Fellini
A Magia do Cinema
Lélio Sotto Maior Jr.
O cinema de Federico Fellini reflete melhor do que qualquer outro a liberdade poética do cinema moderno, a capacidade do cinema de se aproveitar funcionalmente de outras artes (o teatro, a música, a arquitetura) para fazer com eles um todo harmônico e indissolúvel, um verdadeiro carrossel de invenções e ilações, uma multimídia de possibilidades artísticas inesgotáveis, de significações e instigações.
Tudo começou com La Dolce Vitta pois apesar de Fellini já ter realizado outros filmes de interesse artístico (Na Estrada da Vida, Os Boas Vidas e As Noites de Cabiria foram os primeiros filmes de certo interesse artístico realizados pelo diretor), só a partir do seu fecundo afresco da vida moderna que foi La DV é que o cineasta conseguiu estabelecer os parâmetros de sua desenfreada demiurgia pessoal. Misto de reportagem, documentário de TV e ensaio poético Chapliniano sobre os Tempos Modernos, La Dolce Vita abriu novos rumos para o extravasamento de uma nova concepção de cinema.
Mas foi com Oito e Meio que o cineasta veio a configurar de uma maneira definidora e ampla seu ambicioso projeto artístico que era o de levar o cinema à novas dimensões de arte e onirismo.
Em Oito e Meio, uma plêiade de formas e forças convergem a um mesmo eixo transformando o cinema numa incrível usina de irradiação estética e artística.
Não por acaso o crítico José Lino Grunewald chamou o cinema de Oito e Meio de a oitava e meia potência do cinema, como se o cineasta tivesse atingido um vértice artístico de beleza e magia dificilmente superável à curto-prazo.
Apesar dos esforços posteriores de Fellini não terem correspondido plenamente aos píncaros de sua ambição artística, ainda assim são filmes para se ver e rever de um dos melhores melhores cineastas do mundo.
1) Julieta dos Espíritos, reampliação surrealista do seu As Noites de Cabiria, excelentemente bem dirigida e primeira experiência em cores do cineasta, e praticamente a primeira declaração feminista do diretor, que neste filme pôde falar finalmente da liberdade da mulher moderna, à La Simone de Beauvoir.
2) Satiricon, dedicado ao super-espetáculo e à Cinecitta, revelando a possibilidade insinuante de uma mesclagem entre arte e espetáculo, arte/espetáculo.
3) Armarcord, o filme mais bem sucedido do cineasta em termos de público, premiado com o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, e expondo como em La Dolce Vitta os azares e os milagres de uma Itália imaginária, com acréscimo do humor pastelão, ausente no sóbrio La DV.
4) Roma de Fellini, uma consolidação artística do cineasta pois foi o primeiro filme da história do cinema a incorporar o nome do register - documentário verité realizado pelo diretor em homenagem à sua cidade adotiva (Fellini não é romano) com lances de pura poesia.
5) Os Palhaços, documentário sobre o mundo do circo, temática notoriamente felliniana e provável súmula da obra do autor (o filme é inédito nos cinemas).
6) Fellini/Casanova é um retorno ao espetáculo de Satiricon com resultados desta vez mais eloquentes e profundos.
7) A Cidade das Mulheres, manifesto feminista realizado com espetaculares recursos de mise-en-scéne.
8) E La Nave Va; 9) Ginger e Fred; ainda que estes últimos filmes nem sempre o cineasta tenha o arco-íris de La Dolce Vitta e Oito e Meio (filmes estranhamente em branco e preto), por momentos ainda se tem a fagulha do gênio que acreditou mais do que ninguém no cinema como infinito campo de virtualidades estéticas e deslumbrantes desmaios poéticos.





