Cena de ‘‘O Deserto Vermelho’’, de Miguelangelo Antonioni, com Monica VittiSe fosse preciso fazer enquete sobre quem é o mais polêmico e moderno cineasta contemporâneo, é provável que as opiniões ficassem divididas em se tratando de cinema italiano: há o grupo do fellinianos e o grupo dos antonionianos, pois Fellini e Antonioni representam o que de melhor existe na produção italiana dos últimos tempos ou de vinte ou trinta anos para cá. Com uma radical diferença: Fellini é ‘‘celebridade’’, uma espécie de Welles à italiana, gênio retumbante prestigiado a adulado por todos; Antonioni é ‘‘mito’’, é ‘‘lenda’’ de uma vanguarda européia em eterna ebulição assim como Picasso, Joyce e Sartre.
Antonioni notabilizou-se por ter realizado o supra-sumo do intimismo cinematográfico numa trilogia composta por ‘‘A Aventura’’, ‘‘A Noite’’ e ‘‘O Eclipse’’ - uma espécie de manifesto artístico do cineasta. A partir destes três filmes, a modernidade e a originalidade do cineasta começou a ser discutida nos quatro cantos do globo terrestre, como a melhor promessa de cinema de vanguarda já lançada por um cineasta italiano desde que Rosselini realizou ‘‘Europa 51’’. Antonioni se lançava assim, juntamente com os franceses Godard e Resnais, com o sueco Bergman e com o espanhol Bu¤uel, como candidato número 1 ao título de líder de vanguarda européia do cinema.
O que caracaterizava basicamente a novidade de Antonioni era a extrema economia de recursos técnicos e/ou cinematográficos para se obter um realismo seco e despojado, refinado e sóbrio, intimista e provocador. Nestes três primeiros ensaios de cinema total, para muitos básico para o cinema moderno, Antonioni levava, através de roteiros bastante ousados pela inovação e inediticidade das situações apresentadas, o espectador à uma fronteira insólita e inusitada entre o cotidiano e a fantasia, entre o real e o surreal, mas nunca através da forma exuberante de um Fellini ou extravagante de um Bu¤uel e sim através de uma rarefação e de um desdobramento do próprio realismo (ou neo-realismo) levado a um grau de exasperação e crispação máximo, onde era exposto pela primeira vez no cinema o sufoco e a claustrofobia do cotidiano urbano das grandes cidades italianas (e em decorrência, européias).
Se existe um cineasta realmente ‘‘existencialista’’, este cineasta é Antonioni, que colocou nos seus filmes toda a falta de ar e/ou asfixia do huis clos (entre quatro paredes) sartreano, levando a consciência do décor ou do envolvimento ambiental (envoirement) à uma espécie de hiper-sensibilidade neurótica, onde sons, coisas e formas adquirem uma fantástica beleza expressionista arquitetônica.
Depois de assistir à trilogia de Antonioni, o espectador estava preparado para receber as mais provocantes e originais experiências de vanguarda cinematográfica e, coincidentemente ou não, foi o próprio Antonioni quem as proporcionou através dos diáfanos e envolventes ‘‘O Deserto Vermelho’’ e ‘‘Blow Up’’, culminação artística do diretor e clímax estético de toda uma vanguarda européia de cinema (apesar dos resultados não serem tão excelentes, do ponto de vista técnico, quanto aquele conseguido pelos franceses Resnais e Godard), que assumia assim todo o caos e a ambiguidade da nova arte que estava fazendo no mundo todo.
Quando Antonioni foi para a América do Norte e fez o seu cáustico ‘‘Zabriski Point’’, no final dos conturbados 60s, os críticos tiveram a confirmação de que os vínculos do cineasta italiano com a vanguarda americana e com o underground movie não eram acidentais ou casuais.
Posteriormente, ‘‘O Passageiro’’, ‘‘O Mistério de Obervald’’ e ‘‘Identificação de Uma Mulher’’ apenas vieram realimentar a certeza de que a vocação experimental do cineasta, apesar de mais moderada, não havia desaparecido com os anos, antes havia se desenvolvido e se aperfeiçoado.

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