Cinema moderno - 13
Vagas Estrelas da Ursa é um filme político e histórico. Não um filme político e histórico strictu sensu, quer dizer, dentro daquela concepção ortodoxa do que seja cinema político e histórico. O filme é na medida em que coloca criticamente a responsabilidade histórica e política da consciência individual.
A memória (seja ela de âmbito individual ou coletivo), disse Resnais em Hiroshima, Mon Amour, é uma questão política, um fardo angustiante, uma maldição. Visconti os repete em Vagas Estrelas da Ursa.
De O Leopardo em diante, Visconti se dirige cada vez mais para um cinema despojado e anti-catártico. Despojado porque elide aquela teatralização hiperbólica e tonitroante que fazia o máximo de Rocco e Seus Irmãos. Aqui temos a vertente oposta. Travellings laterais cortados a seco e nervosamente, pot-pourri dreyeriano de close-ups (Visconti chega ao cúmulo de construir toda uma sequência - o amanhecer de Volterra - com apenas três close-ups), concisão, secura, zoons diretos e sintéticos, enfim um mínimo de pleonasmo, de redundância: só o radical e o rigorosamente funcional. Anti-catártico porque coloca entre-parênteses a tragédia, a suspende, a desdramatiza.
Vale dizer: a despoja até a medula, a ponto de suspender a catharsis. Vagas Estrelas da Ursa é uma tragédia sem catarse. A catarse, via de regra, soluciona o problema por ela veiculado, o encerra, assim purifica e salva o espectador: reconcilia-o com o mundo, o alivia daquela rarefação asfixiante que lhe provoca um nó-na-garganta. A catarse exorcisa o sursis.
Vagas Estrelas da Ursa termina um minuto antes do explodir da catarse, deixando ao espectador o encargo de por sua vez imaginá-la, inventá-la, e ele mesmo procurar uma conclusão, uma saída para o contexto, deixando-o incluso, suspendido pelo filme. Ou, como diria Roland Barthes: é a técnica do sentido suspenso. Ao espectador, co-inventor do filme, a terrível tarefa de catartizar a tragédia ou destragédia.





