‘‘Vagas Estrelas da Ursa’’ é um filme político e histórico. Não um filme político e histórico strictu sensu, quer dizer, dentro daquela concepção ortodoxa do que seja cinema político e histórico. O filme é na medida em que coloca criticamente a responsabilidade histórica e política da consciência individual.
A memória (seja ela de âmbito individual ou coletivo), disse Resnais em ‘‘Hiroshima, Mon Amour’’, é uma questão política, um fardo angustiante, uma maldição. Visconti os repete em ‘‘Vagas Estrelas da Ursa’’.
De ‘‘O Leopardo’’ em diante, Visconti se dirige cada vez mais para um cinema despojado e anti-catártico. Despojado porque elide aquela teatralização hiperbólica e tonitroante que fazia o máximo de ‘‘Rocco e Seus Irmãos’’. Aqui temos a vertente oposta. Travellings laterais cortados a seco e nervosamente, pot-pourri dreyeriano de close-ups (Visconti chega ao cúmulo de construir toda uma sequência - o amanhecer de Volterra - com apenas três close-ups), concisão, secura, zoons diretos e sintéticos, enfim um mínimo de pleonasmo, de redundância: só o radical e o rigorosamente funcional. Anti-catártico porque coloca entre-parênteses a tragédia, a suspende, a desdramatiza.
Vale dizer: a despoja até a medula, a ponto de suspender a catharsis. ‘‘Vagas Estrelas da Ursa’’ é uma tragédia sem catarse. A catarse, via de regra, soluciona o problema por ela veiculado, o encerra, assim purifica e salva o espectador: reconcilia-o com o mundo, o alivia daquela rarefação asfixiante que lhe provoca um nó-na-garganta. A catarse exorcisa o sursis.
‘‘Vagas Estrelas da Ursa’’ termina um minuto antes do explodir da catarse, deixando ao espectador o encargo de por sua vez imaginá-la, inventá-la, e ele mesmo procurar uma conclusão, uma saída para o contexto, deixando-o incluso, suspendido pelo filme. Ou, como diria Roland Barthes: é a ‘‘técnica do sentido suspenso’’. Ao espectador, co-inventor do filme, a terrível tarefa de catartizar a tragédia ou destragédia.

mockup