Na primeira vez que tentou contactar Júlio Bressane para falar sobre cinema marginal, Eugênio Puppo levou um telefonada na cara. ''Não sou marginal'', retrucou o diretor do outro lado da linha e - bam! - desligou. Depois disso, as relações ficaram mais amistosas e hoje eles conversam civilizadamente, mas o incidente dá uma ideia da reação que a etiqueta provoca nos ex-marginais. A maioria dos autores que se destacaram sob essa bandeira preferem outras definições - cinema experimental, poético. Mas o rótulo forte é cinema ''marginal''. É assim, como ''cinema marginal brasileiro'', que a Lume Filmes e a Heco Produções lançam uma coleção importantíssima, que vai mapear uma era fundamental do cinema do País.
A primeira leva de lançamentos é formada por quatro volumes - incluindo os filmes, extras e livreto com análise dos títulos selecionados e filmografia dos diretores. O preço médio é R$ 39,90 (cada DVD). No total, a coleção prevê 12 volumes, mas Puppo ainda espera que sejam 13, ou 14. O 13º, número cabalístico, poderá ser O ''Despertar da Besta'', de José Mojica Marins, na versão restaurada. Os primeiros a chegar as lojas são ''Bang Bang'', ''Sem Essa Aranha'', ''Os Monstros'' e ''Babaloo e Meteorango Kid'' de Andrea Tonacci.
Traçando o panorama do cinema marginal brasileiro, Arthur Autran observa no livreto que ele se caracteriza por ser um conjunto heterogêneo de filmes realizados entre o final dos anos 1960 até meados da década seguinte. Em outro texto, ''No Meio da Tempestade'', Inácio Araújo diz que os filmes da coleção não caracterizam um estilo nem uma corrente, mas fornecem um documento amplo sobre uma época - a ditadura - e um estado de espírito. Eugênio Puppo sabe que o rótulo de cinema marginal é visto com desconfiança e até desprezo pela maioria dos realizadores desses filmes. Outras definições, cinema de poesia, underground (ou udigrudi), soariam bem melhor aos ouvidos de diretores que continuam a fazer filmes admiráveis (Tonacci, Carlos Reichenbach). Mas o rótulo Cinema Marginal - e aqui ele ganha maiúscula - é inegavelmente um marco histórico do cinema do País e merece ser recuperado e revisitado.
A coleção culmina um sonho que se iniciou há quase dez anos, quando Puppo começou a mapear a produção marginal em ciclos e publicações, e inicia uma parceria entre a Lume e a Heco. A Lume, de Frederico Machado, vem se definindo como uma distribuidora de DVDs de filmes de arte. No mercado brasileiro, atualmente, subsistem a Versátil e ela. Veio de Machado a abordagem a Eugênio Puppo, propondo uma parceria. Puppo observou que a Lume lançava produções importantes do cinema estrangeiro, mas nada da produção nacional.
O selo Cinema Marginal Brasileiro surgiu dessa constatação. Para provar que o rótulo é malvisto, e não só pelos autores, a Lume e a Herco estão bancando a produção. São empresas pequenas e o investimento é de risco - Puppo pede que não seja divulgado. Cada lançamento terá 1 mil unidades num primeiro momento. Só numa eventual segunda tiragem, que eles esperam que aconteça, a coleção poderá começar a ser rentável. O sonho de cinéfilo, de qualquer maneira, está realizado.

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