CINEMA 'Madame Satã' reconstrói nas telas a identidade de um mito
PUBLICAÇÃO
domingo, 24 de novembro de 2002
Luiz Carlos Merten<br> Agência Estado 
É um filme sobre a construção da identidade. E não uma identidade qualquer: João Francisco dos Santos, gay que trabalhava como camareiro de uma estrela caída na Lapa, no Rio, esculpiu para si mesmo a persona de ''Madame Satã'' (confira programação de cinema na página 2), malandro temido na noite da Lapa, dos anos 1940 em diante. Como um preto pobre e homossexual, cujo sonho era vestir-se de mulher e ser uma estrela, podia enfrentar no braço, de igual para igual, os maiores machões do pedaço e ainda vencê-los? Karim Ainouz, um cearense de 37 anos, filho de pai árabe e mãe brasileira, interessou-se pelo personagem numa época em que estava fora do Brasil.
Preocupado em restabelecer os próprios vínculos com o País de origem, ele imediatamente ficou tocado pela exclusão social de João Francisco. ''Ele foi sempre excluído, por múltiplas razões. E nunca aceitou isso passivamente; reagia na base da violência ou da doçura, nunca se deixando abater.'' O ator Lázaro Ramos, que faz o personagem, concorda com a abordagem do diretor, mas diz que ainda está aprendendo muito com Madame Satã. ''Leio coisas que nem imaginava e que as pessoas, os críticos principalmente, estão descobrindo.'' Para criar esse personagem tão complexo, Ramos não podia entrar na sua pele simplesmente na base da intuição. ''Houve todo um trabalho de preparação do físico para que eu me apossasse do personagem.'' Nesse sentido, ele considera muito valiosas as semanas de preparação e ensaios que antecederam a filmagem.
Ramos tem revisto o filme muitas vezes, nas pré-estréias que acompanha pelo País e até no exterior. Só ele sabe o que representou o papel, em termos de desgaste físico. Mas o que admira hoje são os momentos de doçura do personagem. ''João Franscisco tem cenas com Laurita que me encantam pelas nuances que Marcélia Cartaxo conseguiu imprimir à sua personagem de prostituta.'' Marcélia diz que só se sentiu assim tão próxima de um ator ao trabalhar com José Dumont. ''Acho que a parceria com Lázaro foi muito forte, muito rica. Ele é um grande ator, um ator completo: canta, dança e representa.'' Ramos diz que seria fácil fazer uma Madame Satã caricatural, meio Rainha Diaba. Marcélia também acha que poderia carregar no estereótipo da prostituta boazinha. ''Felizmente tínhamos o Karim (o diretor Ainouz) para monitorar nosso trabalho; ele foi sempre muito seguro do que queria'', diz.
Foi há pouco mais de dez anos que Karim Ainouz descobriu o personagem, ao ler sua biografia publicada num volume da Coleção Encanto Radical. O texto de Rogério Durst deflagrou alguma coisa dentro dele. Ainouz achou que Madame Satã dava filme e, mais, que era o filme que sonhava fazer. Pesquisou muito - no Arquivo Nacional -, foi ao Nordeste, onde ele nasceu, visitou o túmulo de sua mãe. Queria entender essa figura a quem Noel Rosa, segundo reza a tradição, dedicou o samba ''Mulato Bamba''. De toda a sua pesquisa deduziu que Madame Satã era um mitômano. ''Construiu uma persona para si mesmo e ainda fez com que todo o meio no qual se inseria participasse do mito.''
Ainouz recriou a Lapa das primeiras décadas do século passado em casarões do Catete, no Rio, maquiados para abrigar a história de João Francisco dos Santos. Esqueça a maquiagem - pode soar como algo negativo, nestes tempos em que tanto se discute, no Brasil, a transformação da estética da fome dos anos 1960 numa cosmética da fome. Ainouz acha o debate necessário porém equivocado. ''Estão transformando uma discussão estética numa questão moral'', diz. Elogia o trabalho do fotógrafo Walter Carvalho, quase sempre apontado como o artífice dessa 'cosmética da fome', como um exemplo de fotografia que serve ao projeto.
''Ele capta toda a sordidez daquele universo decadente; só um grande artista para fazer isso.''
Música, figurinos, direção de arte. Mais do que uma reprodução minuciosa da época retratada, Ainouz pediu e conseguiu de seus colaboradores que o ajudassem a criar um universo visual baseado na emoção. Madame Satã é muitas vezes visto pelo filtro da emoção de João Francisco, como se houvesse alguma coisa a impedir uma visão clara e objetiva dos fatos. Para Ainouz, o mais importante é que a capacidade de João Francisco em transformar as condições adversas em momentos prazerosos é a essência da brasilidade. ''É uma estratégia de resistência política e cultural tipicamente brasileira''. diz.
Desta maneira, por meio da identidade de João Francisco/Madame Satã é a própria identidade brasileira que ele põe na tela.
''Madame Satã'' é um drama com 105 minutos, a censura é para 16 anos.


