O Festival del Mercosur, que termina hoje, cria corredores de circulação para o produto cinematográfico da América Latina
Reprodução‘‘Orfeu’’, de Cacá Diegues foi mostrado no festival sem a presença do diretor

Carlos Eduardo Lourenço Jorge
De Punta del Este
Especial para a Folha 2

No início de 1999, o sempre sacrificado universo cinematográfico latino-americano encontrou uma razão e um espaço a mais para discutir problemas comuns no Festival de Cine del Mercosur, em Punta del Este (Uruguai). A estréia deu certo, este ano o entusiasmo surgiu redobrado. Segundo a diretora do Mercocine, Ana Maria Pinheiro, os canais oficiais ligados à cultura dos países participantes corresponderam à valente iniciativa privada local que entrou com sua cota de colaboração e o cenário de fundo, isto é, a paradisíaca Punta del Este garantiu o apelo final.
Não é uma mostra competitiva e nem de realizações inéditas, embora todos os filmes no catálogo sejam produções recentes, com menos de um ano de circulação desde o lançamento em grandes festivais internacionais ou no circuito exibidor dos países de origem.
A predominância em termos geográficos de Mercosul fica por conta de Argentina e Brasil, respectivamente com 6 e 5 filmes convidados. A incipiente produção uruguaia ofereceu apenas um título, e o Paraguai está ausente da tela do Cantegril Country Club, local escolhido para sediar o evento.
Este ano, entre os filmes brasileiros, o destaque ficou por conta de ‘‘Por Trás do Pano’’ , de Luis Villaça, e ‘‘Mauá, o Imperador e o Rei’’, de Sergio Rezende, os melhores aqui exibidos. A lista se completou com ‘‘A Hora Mágica’’, de Guilheme de Almeida Prado, ‘‘No Coração dos Deuses’’, de Geraldo Moraes, e o ‘‘Orfeu’’, de Cacá Diegues. Entre os diretores, presentes apenas Luis Villaça e Geraldo Moraes. Cacá Diegues, também convidado, não deve ter resistido à ressaca do efeito Oscar.
Do lado argentino, a descoberta de uma obra de grande impacto poético e notável consistência intelectual: ‘‘Los Libros y la Noche’’, combinação de documento e ficção sobre vida e obra de Jorge Luis Borges. Filme maduro de um jovem realizador, Tristán Bauer. Ainda na delegação portenha, destaque para o título que abriu o II Mercocine, ‘‘Garage Olimpo’’, que o diretor Marco Bechis levou a Cannes ano passado.
Consolidando agora a fórmula da edição inaugural de 99, o festival abriu espaço mais uma vez para uma cinematografia latina especialmente homenageada. A vez foi dos mexicanos, que trouxeram três de suas produções recentes de maior repercussão: ‘‘El Coronel no Tiene Quien le Escriba’’, de Arturo Ripstein, com roteiro do próprio autor da novela, Gabriel Garcia Marquez. ‘‘El Coronel...’’ competiu em Cannes-99. ‘‘Santitos’’, de Alejandro Springall, uma brilhante paródia místico-mundana sobre os excessos dramáticos que acompanham as muitas superstições infantilóides da cultura latina e ‘‘Sexo, Pudor e Lágrimas’’, comédia de Antonio Serrano.
A comissão organizadora do Mercocine também reservou um trunfo de peso para a programação paralela de mesas redondas e workshops. Como o Encontro de Roteiristas, promovido pelo Sundance Film Institute e com a participação de roteiristas do Uruguai, México, Argentina e Brasil, além de imprensa convidada.