Baixo orçamento, elenco desconhecido, roteirista-diretora estreante, boa história desglamourizada. Apesar da ótima acolhida da crítica mundial, estas características de rigoroso filme independente (veja a programação de cinema na página 2), distanciadas dos padrões de ''qualidade'' hollywoodiana, levaram ''Rio Congelado'' a uma discreta carreira comercial mundo afora. A lamentar, sob todos os aspectos: o tema atual e candente desenvolvido em roteiro rigorosamente enxuto, as interpretações de alto nível e uma direção segura não foram suficientes para levar às salas um público maior.
Ray (Melissa Leo), mulher madura, é abandonada pelo marido às vésperas do Natal. Com ela ficam um filho adolescente, um menor de cinco anos e a condição de miséria - o marido, um jogador viciado, praticamente limpou o trailer-casa, roubando inclusive o sonho da casa própria. O emprego na pequena cidade no Estado de Nova York onde ela vive mal dá para alimentar a família, e agora ainda há dívidas a saldar. Enquanto desesperadamente busca pelo marido, Ray tem um encontro violento e inesperado com Lila Pequena-Loba (Misty Upham), jovem índia mowhak que trabalha no cassino que sua tribo mantém na localidade e que sobrevive em outro trailer em meio ao bosque gelado.
Essas mulheres - é um filme sobre mulheres, no sentido mais nobre do conceito -, uma branca, outro índia, deverão se sobrepor a suas aparentes diferenças de cultura e raça para alcançar uma insuspeitada e audaciosa solidariedade, capaz de desafiar não apenas a natureza agreste, mas principalmente as regras machistas de suas respectivas sociedades. Elas vivem no fio da navalha, ajudando imigrantes ilegais a cruzar a fronteira entre EUA (Nova York) e Canadá (Quebec). A rota principal é o rio congelado do título.
Aos 46, a diretora Courtney Hunt, com jeito de experiente veterana, o que de resto não é, fez um filme preciso, com tensão dramática no ponto exato, daquele tipo raro que não desgruda do espectador. Seu roteiro é tipicamente contracorrente. Tem força, intensidade e emoções sinceras, surgidas de personagens com enorme densidade, feitos de carne, osso e sentimentos. E que se movem por razões profundamente humanas em meio a este entorno geográfico desolado e árido.
Hunt consegue maravilhas de suas duas atrizes. Muito justa a nominação de Melissa Leo ao Oscar da categoria, pela primeira vez atriz principal embora com larga experiência televisiva. Ela aprofunda o retrato desta mãe-loba, papel difícil pela amargura, desespero e fortaleza que transmite, sem momentos de relax que permitam qualquer descanso emocional.

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