CINEMA Harrison Ford é oficial russo em 'K-19'
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sexta-feira, 30 de agosto de 2002
Luiz Carlos Merten<br> Agência Estado 
Harrison Ford é um ícone americano, goste-se ou não dele. Já foi presidente dos EUA, duas vezes agente da CIA. Não é a menor das curiosidades de ''K-19 - The Widowmaker'' ver agora Harrison Ford no papel de um oficial russo. Ele começa o filme de Kathryn Bigelow, que está em cartaz em vários cinemas (veja programação de cinema nesta página), na firme posição de stalinista. Evolui para a surpreendente posição, num filme americano, de bater continência e reverenciar um punhado de heróis da extinta União Soviética, a quem ainda chama de ''heróis da humanidade''.
Logo no começo de ''K-19'', um letreiro informa que o filme se baseia numa histórial real. E o letreiro acrescenta: em 1961, a URSS tinha um arsenal atômico capaz de destruir a Terra duas vezes. Os EUA multiplicavam esse poder de fogo por cinco e podiam destruir a Terra dez vezes. É nesse quadro que surge a história do ''K-19'', o submarino nuclear que é o orgulho da Marinha soviética. Mas ele ainda não está pronto, adverte o comandante Liam Neeson nas primeiras cenas, ao cabo de um malogrado exercício de simulação de ataque. Entra em cena o stalinista Harrison Ford, homem de confiança do Partido Comunista, para realizar, a qualquer custo, o exercício que, detectado pelos satélites dos EUA, vai impor um limite aos americanos, mostrando a capacidade de destruição dos soviéticos. O que ocorre é uma sucessão de desastres que justifica o título. O submarino K-19 é chamado de The Widowmaker, o Fazedor de Viúvas.
Kathryn Bigelow, ex-mulher de James Cameron, dirigiu filmes como ''Jogo Perverso'', ''Caçadores de Emoções'' e ''Strange Days''. O primeiro mostra Jamie Lee Curtis como uma policial masculinizada cujo corpo, quando ela o descobre, delata a feminilidade latente. Essa heroína pós-feminista entra em contato violento com um psicopata - para Kathryn, não há outro contato sexual possível a não ser pela violência. Seria um insulto, talvez, dizer que ela possui uma direção de cena viril, mas é a pura verdade.
Um entusiasta de Kathryn, o romancista Guillermo Cabrera Infante - que se assinava Guillermo Cain nos tempos de crítico -, já escreveu que se há um diretor, ou diretora, que conhece seu ofício é ela. É bonita, tem 1,80 m e seu QI é tão alto quanto ela. É uma intelectual num mundo, Hollywood, em que o intelecto não vale grande coisa. Em K-19, Kathryn usa heróis soviéticos para tratar de um tema tipicamente americano: a segunda chance. Ela fez, inclusive, o seu Lord Jim: todo o episódio envolvendo o aprendiz de oficial de reator Vadim faria chorar o próprio Joseph Conrad.


