César Charlone estava em trânsito, saindo do set de Tony Scott, na Cidade do México, para ingressar no set de Spike Lee, em Los Angeles, quando recebeu a notícia de que havia recebido o grande prêmio da ABC, a Associação Brasileira de Cinematografia, pela fotografia do filme ''Cidade de Deus'', de Fernando Meirelles. O prêmio lançou a pá de cal no debate sobre a polêmica estética versus cosmética da fome, da qual o filme de Meirelles, com a fotografia de Charlone, seria um dos paradigmas. ''O que mais me alegrou foi que o prêmio veio dos meus companheiros fotógrafos'', explica ele, numa entrevista por telefone, de Los Angeles.
Em um mês, Charlone, de origem uruguaia, teve a experiência de participar de duas importantes produções internacionais. Tony Scott, o irmão de Ridley, viu ''Cidade de Deus'' e, entusiasmado com a fotografia de Charlone, chamou-o para ser o primeiro câmera de ''Men in Fire'', o filme cuja rodagem conclui atualmente na Cidade do México. Também chamou Gero Camilo, do elenco de ''Cidade de Deus'', para um papel importante. Denzel Washington faz o mercenário americano que estabelece uma indústria do sequestro no México. A história é real e o protagonista, que hoje vive encerrado numa prisão de segurança máxima, ficou famoso pelo costume de arrancar a orelha dos sequestrados, enviando-as como advertência em seus pedidos de resgate.
Charlone conta que nunca viu gigantismo igual na realização de um filme que, afinal de contas, não é um épico. Só de motoristas, a lista de pagamentos da produção engloba 150. Um hotel inteiro da Cidade do México, o Camino Real, de cinco estrelas, foi ocupado pela equipe. ''Men in Fire'' também ocupou boa parte dos Estúdios Churubusco Aztecas, os maiores do México. Foi uma experiência valiosa, mas um pouco frustrante, explica Charlone: ''O Tony me chamou porque havia gostado da fotografia de Cidade de Deus, mas ele trabalha num esquema em que me senti subvalorizado.''
E ele conta: ''Tony sabe exatamente o que quer. Acorda às 4 da manhã, acende o primeiro charuto, tem de ser um Montecristo, e faz ele próprio o storyboard, desenhando os planos que vai rodar durante o dia. É um artista plástico, tem grande sensibilidade para a cor e a luz. Sabe a lente, o rebatedor, tudo o que vai usar. Nesse contexto, não há muito estímulo à criatividade do diretor de fotografia e, menos ainda, do primeiro câmera.'' Foi aí que surgiu o convite de Spike Lee. O diretor de ''A Última Noite'', em cartaz na cidade, viu ''Cidade de Deus'' duas vezes e, entusiasmado, contatou Charlone para ver se ele topava fazer a fotografia de seu novo filme.
''Quando ele me ligou, deixou claro que era para assumir imediatamente. Falei com o Tony e ele foi muito bacana, me liberou no ato.'' E foi assim que Charlone desembarcou em Los Angeles para fotografar Sucker Free City. É uma expressão pejorativa que designa São Francisco. E, de novo, é outro filme, como ''A Última Noite'', que extrapola a questão dos afro-americanos.
Spike Lee roda em Los Angeles como se fosse São Francisco. A filmagem começou há duas semanas e o filme tem mais três em Los Angeles, antes de terminar em Nova York. ''É uma obra de encomenda, um piloto que o Spike está fazendo para a rede Showtime, concorrente da HBO. Se der certo, vira série.'' O set de Spike Lee não é tão gigantesco como o de Tony Scott. ''Ele viu o ''Cidade de Deus'' pela terceira vez, quando explicou à equipe o que queria fazer e por que eu estava vindo.'' O que mais o impressiona no set de Sucker Free City é a concentração. ''Spike é um cara muito sério'', define. Charlone está tendo a oportunidade de trabalhar a cor e a luz como gosta, de uma maneira bem realista. Ele está abandonando o Brasil para fazer carreira no cinema americano? ''Não posso, tenho minha casa, minha família no Brasil. É bom porque já surgiram novos convites, mas eu volto porque em agosto faço, em HD, o meu episódio para a nova série 'Cidade dos Homens', na Globo.''

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