Diante do aparato montado para garantir a integridade e o bom andamento desta 62 Mostra Internazionale d'Arte Cinematografica iniciada ontem, dá até para desconfiar que o serviço de inteligência italiano recentemente andou recebendo denúncias sobre possíveis atentados ou descobriu algum plano terrorista. O resultado, na prática, é um conjunto de medidas de segurança até então nunca visto por aqui. A saber: uma área vermelha de cerca de 30 mil metros em torno do Palazzo del Cinema com telecâmeras apontadas para todos os cantos e detectores de metal a cada dez passos; um labirinto de barreiras digno de prova olímpica, uma multidão de policiais trazida de diversas partes da Itália, além de agentes disfarçados, dezenas de cães farejadores e atiradores de elite nos telhados. O tráfego está bloqueado até para bicicletas. Bolsas, mochilas, capangas e pochetes, tudo é aberto e minuciosamente revistado, credenciais e ingressos controlados eletronicamente. Isto tudo poderia estar na tela como um filme sobre a paranóia, mas é só o triste retrato um país que paga pesado tributo à política de coalizão italiana, específica no caso da invasão e ocupação do Iraque.
Para a imprensa, o festival começou ontem cedo com a exibição hors-concours do filme da abertura, o chinês ''Sete Espadas'', que foi visto à noite na gala oficial comandada pela atriz Inês Sastri. Quem tem bem guardadas as imagens e emoções dos recentes ''Herói'' e ''O Clã das Adagas Voadoras'', ambos de Zhang Yimou, não vi se surpreender com esta produção chinesa de ''wuxia'', o gênero de capa e espada made in China. Ou melhor, vai se surpreender um pouco sim, porque o diretor Tsui Hark, mestre da ação de Hong Kong, decidiu fazer o que ele chamou na coletiva de ''reality kung fu'', com poucos efeitos especiais e acrobacias reduzidas ao mínimo.
Quase duas horas e meia de intrigas, ação eletrizante e grande poder de comunicação através de um extenso catálogo de imagens absolutamente irretocáveis. O argumento, baseado em fonte literária e muitos pontos de contato com ''Os Sete Samurais'', que Kurosawa realizou há 50 anos, conta a história de sete hábeis espadachins reunidos para combater uma tirânica dinastia do século 17 que decidiu eliminar cruelmente as pessoas que praticam artes marciais. Abstraído do contexto do festival, o filme pode ser visto sem maiores problemas, já que é bem-feito e interessante. Mas é só. Selecioná-lo para abrir uma mostra com a tradição de Veneza é que torna sua presença aqui questionável.
A escolha, duvidosa do ponto de vista da finalidade ''arte & ensaio'' de um festival, remete ao gosto pessoal do diretor do evento, Marco Muller, que é chegado às cinematografias marginais (filmes curdos, tailandeses, do Uzbequistão, etc) ou exóticas (chineses, japoneses, indianos). Mas este foi apenas o início da festa. Vêm mais sedas e mesuras por aí, já que Veneza-2005 está toda faceira ''in the mood'' oriental.
Por fim, a coletiva do júri principal, este ano composto pelo diretor de arte Dante Ferreti, os diretores Edgar Reitz, Amos Gitai, Claire Dennis, Isabel Coixet e Zhong Acheng, e mais a atriz Emiliana Torrini e a produtora Christine Vachon. Nada de mais estimulante, nenhum declaração diversa da burocracia, todos apenas ''à espera de bons filmes'' e ''estamos aqui na esperança de encontrar bom cinema''.
Como dono da festa, o diretor Marco Muller apresentou o júri. E foi dele afinal a resposta que melhor se aproveitou, não só para o Brasil. Questionado por um jornalista brasileiro sobre sua declaração (ao site da BBC) de que ''os filmes brasileiros eram brasileiros demais e universais de menos'', daí a razão de ficarem fora da seleção, Muller disse que não disse. Mas entrou em contradição quando citou especificamente a recusa de ''Casa de Areia'', de Andrucha Waddington e a inclusão de ''Árido Movie'', de Lírio Ferreira. Ele, pessoalmente, como filho de mãe brasileira, teve entendimento favorável a Andrucha, mas diverso dos demais membros (sempre eles, os vilões...) do colégio de curadores. Já o filme de Ferreira teria o perfil de obra mais aberta, justificando assim sua aceitação. Um caso a pensar, sem dúvida.

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