Curitiba A miséria pode ser negociada? Para o cineasta paranaense Sérgio Bianchi, sim. E é esse universo que ele retrata no longa ''Quanto vale ou é por quilo'' que tem estréia nacional hoje. O filme começou a ser rodado em 2003 e tem cenas filmadas no Paraná, mais especificamente na Lapa, onde acontecem as histórias ambientadas no século 18. Mas não se trata de um filme de época, conforme o próprio diretor alertou em entrevista concedida em Curitiba. ''O filme retrata um raciocínio, de que a pobreza, a miséria pode vir a ser um comércio. E isso acontece desde há muito tempo até nos dias atuais. A época não importa e sim o tema''.
No longa, Bianchi faz uma analogia entre o antigo comércio de escravos e a exploração da miséria em programas contemporâneos bastante conhecidos e divulgados na mídia. Cita, por exemplo, o ''Fome Zero'' como um exemplo desse surreal comércio. Para escrever o roteiro do filme feito em parceria com Eduardo Benaim e uma equipe de colaboradores o diretor partiu do conto ''Pai contra Mãe'' de Machado de Assis. A história é entremeada ainda com pequenas crônicas assinadas por Nireu Cavalcanti sobre a escravidão. Os textos foram retirados dos autos do Arquivo Nacional do Rio de Janeiro.
No elenco, estão desde figurantes até atores paranaenses mais conhecidos do grande público, como Emílio Pitta e Odelair Rodrigues, que morreu no mesmo ano das gravações do longa no Paraná. Eles contracenaram com profissionais como Caco Ciocler, Herson Capri e Lázaro Ramos, que também integram o elenco do filme. Além das cenas rodadas no Estado, o longa foi filmado também em São Paulo, com cenas em estúdio e externas.
''Quanto vale ou é por quilo'' sucede ''Cronicamente Inviável'', lançado em 2000 por Bianchi. Às vésperas de completar 60 anos, ele é considerado um dos diretores mais polêmicos do País, conhecido por denunciar uma sociedade pouco palatável, mas real. No filme atual não é diferente. Bianchi cita dois episódios retratados no longa para exemplificar esse contexto. Em um deles um capitão-do-mato captura uma escrava que está grávida e recebe a recompensa enquanto a mulher está abortanto. A situação acontece no século 17, mas nos dias atuais, um imbróglio que envolve um Ong que desenvolve um projeto de informática na periferia remonta à mesma crueldade numa situação distinta.
''Existem semelhanças entre os artefatos econômicos de usar escravos como moeda, antigamente, e usar a pobreza para alcançar visibilidade'', diz o diretor. Ele adianta ainda que criou dois finais para o filme. ''Havia possibilidade de um terceiro, mas não tinha dinheiro para fazer'' conta. O material captado é vasto. A primeira montagem do longa, foi finalizada em 2 horas e 50 minutos. ''Mas a montagem final não chega a duas horas'', conta Bianchi. O longa-metragem tem orçamento-médio. O cineasta não cita valores, mas um orçamento enquadrado nessa categoria pode variar entre R$ 1 milhão e R$ 3 milhões. A demora em conseguir captar recursos foi uma das causas do atraso na conclusão do filme.
Bianchi, aliás, avisa às dezenas de atores e figurantes que participaram das filmagem que muitas cenas foram cortadas. ''Não é um filme de protagonista'', enfatiza, voltando a salientar que o que importa é o tema. Na coletiva que Bianchi concedeu, ao lado dos atores Dieizol Motta e Emílio Pitta, dois dos atores paranaenses que participam do filme, ele dissse ainda que, apesar de ter nascido no Estado, não tem nenhuma intenção de voltar a viver nele. ''O Paraná é terra de exilados. Não é lugar para gente criativa. A gente se cria aqui, mas para trabalhar é preciso sair'', concluiu.

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