Depois de vários anos de conflito armado no Iraque e diante de um quadro que por ora parece não ter solução, produtores de Hollywood se perguntam se o público está preparado para ver filmes que mostram a dor e as atrocidades da guerra. E a resposta parece ser um grave sim.
Estreados recentemente no mercado norte-americano e atualmente distribuídos em amplo circuito internacional, títulos diversos dão a medida do que representa mais esta luta armada, mais este capítulo da teimosa vietnamização da política externa da Casa Branca. Assinados por realizadores mais ou menos conhecidos, mas tendo como linha comum o sincero empenho em não esconder as chagas abertas, os argumentos via de regra não poupam as platéias, por sua vez conscientes da necessidade de ver as coisas da maneira mais próxima da realidade.
Um dos exemplares desta safra beneficamente ''maldita'' está em exibição em Londrina. ''Inspirado em história real'' - e aqui este rótulo quase sempre inútil na dramaturgia hollywoodiana é um fator positivo -, ''No Vale das Sombras'' é doloroso inventário sobre o envolvimento dos EUA no Iraque, e as consequências inevitáveis e quase sempre trágicas entre os jovens soldados. O filme, em estilo seco e essencial, vasculha a verdade dramática dos fatos, via de regra difícil de aceitar pela simplicidade moral que pressupõe.
O cult Brian De Palma também deixou sua contribuição com outra certeira investida antibelicista. ''Redacted'', misto de ficção e documentário, deu a ele o Leão de Prata de melhor diretor no último Festival de Veneza, onde também concorreu ''No Vale das Sombras''. O filme enfrenta, no momento, diversos problemas de ordem legal para ampliar sua circulação mundial, inclusive a imposição de cortes. No Brasil ainda não há previsão de lançamento.
''Redacted'', que significa cortado ou editado (a referência de De Palma é ao material veiculado pela imprensa sobre a guerra, segundo ele totalmente manipulado antes de chegar ao público), inclui episódios ainda muito recentes na memória do espectador estadunidense. Entre eles, o estupro e posterior assassinato de uma garota iraquiana de 14 anos e do restante de sua família por um grupo de marines numa cidade de fronteira. Mas as imagens mais terríveis ficam para o final, quando centenas de corpos esfacelados de iraquianos tomam conta da tela.
Já lançado em Londrina, o liberal ''Leões e Cordeiros'', de Robert Redford, fala sobre dois soldados no Afeganistão que lutam para sobreviver, enquanto nos Estados Unidos um professor discute com um aluno sobre responsabilidade civil e um senador analisa com uma jornalista as estratégias militares do conflito.
Com lançamento entre nós previsto para 18 de fevereiro, ''Grace is Gone'' é o filme que pode dar a John Cusak o Oscar de ator. Ele faz o viúvo da mulher que servia no Iraque, e que agora deve estar disponível para as filhas depois da tragédia. Mais além do que um sintoma, o filme levou o prêmio do público no Festival de Sundance. O espectador avaliou e avalizou o impacto da guerra na célula familiar, tão cultuada nos Estados Unidos.
Sucesso antecipado pela carreira triunfal do best-seller ao redor do mundo, a adaptação fiel do livro de Khaled Hosseini, ''O Caçador de Pipas'', chega ao Brasil já na próxima semana. As conturbações de um Afeganistão em permanentes conflitos político, religiosos e étnicos acabam por comprometer a amizade entre dois garotos muito amigos, com desdobramentos ao longo de três décadas.
Estes são somente alguns dos títulos, entre numerosos longas metragens, documentários e de ficção, que mostram diferentes aspectos de guerras que deixarão profundas cicatrizes na sociedade dos Estados Unidos. Como se observa, existe forte interesse em Hollywood para não parecer ''indiferente'', para não reforçar a idéia de que as pessoas vão ao cinema somente para ver filmes escapistas. Além disso, os estúdios querem capitalizar o fato de que a grande maioria é contrária à política exterior invasiva de Bush. E, por outro lado, muitos realizadores sentem que é dever de ofício oferecer às platéias temas que provoquem discussão e levem a uma análise mais profunda da situação atual do país.
O desafio maior que os cineastas dispostos a esta empreitada enfrentam é como terminar um filme sobre o Iraque e a guerra contra o terrorismo. Sabe-se por ora que este será um caminho longo e complicado da história dos EUA, mas poucos podem prever seu final.

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