Antes de qualquer outra coisa, festival de cinema é onde supostamente devem ser agrupadas, em competição ou em sessões paralelas, produções que de alguma forma abram janelas para o novo. Não se pode dizer que passou muito disso aqui, nas telas do 53º Festival Internacional do Filme de Cannes. Numa avaliação no último dia da mostra competitiva, o japonês ‘‘Eureka’’, de Shogi Aoyama, seria a experiência mais radical, não a radicalidade velha e inócua de Ruy Guerra e seu ‘‘Estorvo’’, mas a espécie de filme capaz de desintegrar nosso relógio interno e anunciar um estilo novo, uma espécie de pós-cinema.
Próximo, muito próximo, se situa ‘‘Code Inconnu’’ (Código Desconhecido), visto ontem na principal sessão de Cannes. O filme está catalogado como representante da França, o último a competir pela bandeira e honra dos anfitriões. Mas é outro caso - entre muitos oferecidos pelo festival - de co-produção européia, especificamente franco-austríaco-romeno-alemã. E curiosamente, em parte, o filme trata mesmo um pouco disso, desse mix inter-racial, multicultural, economicamente desnivelado que atende pelo nome portentoso de União Européia.
A partir de um gesto banal de irritação - um adolescente contrariado joga no colo de uma mendiga um resto de pão embrulhado -, o diretor Michael Haneke, um polemista de grosso calibre (o eletrochoque ‘‘Funny Games’’, apresentado em Cannes-97, está nas locadoras brasileiras: experimente este tratado minimalista sobre a violência) cria um mosaico de situações, de sketches, de fracionamentos de narrativa onde os personagens interagem ou não. Sua temática mais aparente e, digamos, mais expositiva, é a babel de línguas em que se transformou a Europa, a violência menos visível e mais insidiosa que gera uma paralisia no processo de comunicação, a frieza glacial da sociedade de consumo, a xenofobia. Mas é, como já se disse, a temática mais aparente. A Haneke interessa provocar. De preferência respostas a um rol de questionamentos que vão surgindo aqui e ali, entre informações importantes e outras fragmentadas, banais. Todas as interrogações não são novas, mas ganham atualidade porque se relacionam com o reinado da mídia contemporânea. Inquieto e provocador, Haneke questiona não apenas seus temas mais recorrentes como destinos cruzados e família, mas categorias estéticas e morais, o real e o ilusório, a verdade ou a mentira das coisas, vistas e supostamente entendidas.
A programação que encerra hoje o Festival de Cannes traz o último trunfo asiático para um possível confronto - ou uma unanimidade - em busca da Palma de Ouro. Won Kar-wai mostra ‘‘In the Mood for Love’’, melodrama até há pouco apresentado como ‘‘Untitled’’ (sem título). Kar-wai é o diretor de ‘‘Amores Expressos’’ e ‘‘Happy Together’’, que levou o prêmio de direção em Cannes-97. É o derradeiro longa em competição a desfilar na Croisette.
Para o Brasil o festival ainda não terminou. Hoje à tarde é a sessão de curtas-metragens que concorrem à Palma da categoria, na nova e confortável sala Luis Buñuel. A gaúcha Ana Luiza Azevedo e seu ‘‘3 Minutos’’ estão no páreo.

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